Meto-me para dentro, e fecho a janela
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito,
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.
Alberto Caeiro
Poemas inconjuntos
sexta-feira, janeiro 09, 2009
Publicada por
Teresa lucas
à(s)
18:30
4
comentários
sábado, outubro 18, 2008
La na praia da Boa Nova

Lá na praia da boa Nova um dia
Edifiquei,( foi esse o grande mal)
Alto castelo que é a phantasia
Todo de lapiz lazzuli e coral
António Nobre
Publicada por
Teresa lucas
à(s)
12:38
4
comentários
Trabalho diurno
-
-
-
-
-
TRABALHO DIURNO
-
-
-
-
Esvaziei a tarde do sol que a enchia;
tirei a luz do céu, balde após balde,
e deitei-a para o poço sem fundo
onde ela caía, num baque surdo,
espalhando pedaços de brilho
pelas paredes húmidas. Quando
o dia ficou sem luz, tapei o poço
com a tampa, e perguntei se alguém
precisava de ser iluminado. Vinham
ter comIgo; e perguntavam-me quanto
custava um grama de sol. Eu dizia-lhes:
«É mais caro do que a noite.» Mas eles
não se importavam, e juntavam-se
à minha volta, para que eu voltasse
a abrir o poço. E eu, sabendo que
a corda do meu balde não dava para
chegar ao fundo, pedia-lhes que
se atirassem para dentro do poço,
atrás da luz, se não queriam
a noite. Mas eles recusavam; e
afastavam-se na obscuridade,
deixando-me sozinho. Então, levantava
a tampa do poço - e via, lá no fundo,
a última luz a desaparecer no abismo.
-
-
-
-
Nuno Júdice
A Matériado poema
1ª edição - Abril de 2008
Publicações Dom Quixote
-
-
-
Publicada por
Teresa lucas
à(s)
12:28
2
comentários
domingo, outubro 12, 2008
a árvore abriu-te os braços e eu despi-te
o verde como se eu fosse a mão do outono
e dei-te o suco branco da inquietude
e o amor como palavra fome
deixa que o verbo rebente
como tu dentro do eu
língua de terra gramática de onda
nascemos da espuma de uma frase
Pedro Sena-Lino
Publicada por
lena
à(s)
12:26
2
comentários
Etiquetas: Pedro Sena-Lino
quinta-feira, abril 24, 2008
Estavas sentado
Estavas sentado e havia uma paisagem agreste
nos teus olhos: as nuvens a prometerem chuva,
os espinheiros agitados com a erosão das dunas,
um mar picado, capaz de todos os naufrágios.
O teu silêncio fez estremecer subitamente a casa -
era a força do vento contra o corpo do navio; uma
miragem fatal da tempestade; e o medo da tragédia;
a ameaça surda de um trovão que resgatasse a ira
dos deuses com o mundo. Quando te levantaste,
disseste qualquer coisa muito breve que me feriu
de morte como a lâmina de um punhal acabado
de comprar. (Se trovejasse, podia ser um raio
a fracturar a falésia no espelho dos meus olhos.)
Hoje, porém, já não sei que palavras foram essas -
de um temporal assim recordam-se sobretudo os despojos
que as ondas espalham de madrugada pelas praias.
Maria do Rosário Pedreira
Publicada por
lena
à(s)
14:25
8
comentários
Etiquetas: Maria do Rosário Pedreira
terça-feira, abril 01, 2008
Não colher as mãos
não colher as mãos, alimentar os objectos.
tocá-los devagar, deixando o fio correr desde
o ar até à ponta dessa sombra onde repusa
o mundo. tenho a certeza de que algo se
mexe no silêncio. olho uma vez. olho uma vez.
sei que falas com as coisas. que tens um pacto
com as rãs, outros pequenos animais, certos verdes
hereditários gestos. que nem que quisesses me
poderias contar. e sei de tudo limpo e é para ti que
inclino as mãos quando percorro as cidades e as
esqueço. esta pequena saudade é uma floresta
de silêncios. sou capaz de adormecer sobre o fogo.
Rui Costa
Publicada por
lena
à(s)
20:52
7
comentários
Etiquetas: Rui Costa
quarta-feira, fevereiro 20, 2008
Os Girassóis

Às vezes ouves-me chorar
não é fácil deixar a tua mão
De quarto em quarto
quem espera
o terror de não haver ninguém
As paisagens alteram-se sem resolução
narrativas imortais desaparecem
e os girassóis assim
vulneráveis a desconhecidas ordens
Tu estás tão perto
mas sofro tanto
porque não vejo
como possa falar de ti
entre dois ou três séculos
José Tolentino Mendonça
Publicada por
lena
à(s)
16:27
5
comentários
Etiquetas: José Tolentino de Mendonça
sábado, fevereiro 09, 2008
No cortejo das sombras,
incapaz de te encontrar,
tão irreal que és,
como uma manhã de inverno
ou uma rua deserta,
no cortejo das sombras
distingo
o pavor de te desconhecer
Luís Quintais
Publicada por
lena
à(s)
12:36
3
comentários
Etiquetas: Luís Quintais
segunda-feira, janeiro 21, 2008
Facilmente se constata, pela falta de comentários aos poemas postados, que o trabalho desenvolvido não é apreciado.
Pelo menos da maneira que sempre esperei que o fosse.
Para já, e até futura decisão definitiva, o blogue Traz Outro Amigo Também encontra-se suspenso.
Acredito, pelo que sinto actualmente, que o poema anterior terá sido o último a ser postado.
Não me sinto motivado a continuar...
Publicada por
Gil Von Doellinger
à(s)
08:20
7
comentários
Etiquetas: Quem_Sou_Eu
conformismo

almas que se esvaziam
em correntes paralelas
cadências sem compasso
orquestra de solistas
destilo consciências
seduzo-me em insinuações
saboreio a doutrina
do conformismo
duarte costa
18 de dezembro de 2007
Publicada por
Gil Von Doellinger
à(s)
08:17
0
comentários
Etiquetas: Duarte Costa
quarta-feira, janeiro 09, 2008
Subscrevo-me, eu

Esgrimas as palavras esfomeadas de justiça,
esgotas esmolas, favores ..o mundo tudo te deve.
Esfregas na cara da multidão os teus feitos, des-
feitos em espirais, enterros e vendadais e vais
por esse mundo ofendendo valores ancestrais.
Atrais a ostentação, a soberba em cada mão e..
o mundo tudo te deve.
Ordenas a submissão, humildade à multidão, a
guerra à irmã do teu irmão e na tua ansiedade
de reconhecimento pisas um caminho sangrento ...
de sofrimento um cento!
Sinto-te o cheiro putrefacto pelo facto de jubilares
com a desgraça de outra raça, cujos ideais vão mais
longe que o teu presente tão ausente de gratidão ...
mas o mundo tudo te deve!
Olho para o espaço vazio, sem alma desde que a
chama foi apagada pela ignomínia da tua mão,
e rendo-me à evidência que ao mundo tudo deves, o que
te atreves, o impropério enlaçado num laço enrolado,
recuei no tempo e via a amiga perversa, o ladrão de
fantasias, uma vida submersa pela mão inconsciente de
uma mente doente .. e tudo deves ao mundo !
Subscreve o subscritor submerso no terror de sublimar
o arrogante!
A plateia que se levante, fechei o instante!
Maria Inez Lemos
In Tinta Fina
Publicada por
Gil Von Doellinger
à(s)
08:39
0
comentários
Etiquetas: Maria Inez Lemos
Céu Negro

Céu negro
poente
sem cor
de costas pr´o amor!
Sol-pôr
sem cor
sem amor
doente!
É estar
algures
sem ti!
Mário Silva
Publicada por
Gil Von Doellinger
à(s)
08:35
1 comentários
Etiquetas: Mário Silva
O que é certo é que gostei de ti

O que é certo é que gostei de ti.
O resto não: se exististe,
e se assim foi, qual a cor dos olhos, ora verdes
ora cinzentos, deles levantou-se uma vez
um bando de andorinhas. Quais. As rápidas,
as que não andam, as que se amam no ar.
Como foi. Ficaste doente
ou coisa assim, levaram-te, muito se passou,
acho que ia ter outro filho e esqueci-me de ti
até ouvir-te, esta noite, a horas impossíveis,
vem comigo, é tempo. Larga tudo e sai,
espero por ti ao pé da cancela.
Mas cheguei lá e o trinco
estava solto, batia ao vento
contra o poste, fechei-o, voltei para trás,
a pensar em ti, que estiveste lá,
sabe-o Deus, que abriste a cancela,
que gostei de ti e também
que a porta não encaixava bem.
Eva Gerlach
Publicada por
Gil Von Doellinger
à(s)
08:20
1 comentários
Etiquetas: Eva Gerlach
terça-feira, janeiro 01, 2008
Caminho

Perto está
o caminho
que longe está.
Lá
a fonte canta
véus de luar
na liquidificada planície
do teu olhar.
Hoje
talvez a tua voz
dissipe a nuvem que cobriu
o brilho das estrelas
e os pássaros voltem a cantar
no ramo de pessegueiro
que o ano novo floriu.
Jorge Arrimar
In Secretos sinais
Publicada por
Gil Von Doellinger
à(s)
19:29
2
comentários
Etiquetas: Jorge Arrimar
podias aparecer mais vezes

podias aparecer mais vezes percorrer a
pressa deste café (estranho arquipélago de
percursos) sua história somos quem a
escreve (alguém a quem se autoriza uma
cadeira vazia, o gesto de calçar o pé mais
curto da mesa,.o render de empregados
cedo recolhendo a despesa) este poema
tem vírgulas, o meu primeiro cigarro (doze
passas de ano novo) tínhamos ambos quinze
anos deves ir quase nos trinta (eu dentro dos
vinte e seis) penso não ter conseguido crescer
tanto como tu. vive-nos pouco um cigarro:
podias ficar esse tempo os homens como
as garrafas devem ser despidos por dentro
João Luis Barreto Guimarães
Publicada por
Gil Von Doellinger
à(s)
18:10
0
comentários
Etiquetas: João Luis Barreto Guimarães
quarta-feira, dezembro 19, 2007
Quase-Nada

Suplicantes,
nuas,
duas mãos em prece
aguardando o milagre,
que acontece.
Uma coisa que não,
um quase-nada,
e os sonhos voltarão,
de madrugada...
Manuela Oracy
In Súbito
Publicada por
Gil Von Doellinger
à(s)
08:36
2
comentários
Etiquetas: Manuela Oracy
Quase não ouso escrever

Quase não ouso escrever
já disse tudo
articulo a voz pelo caminho:
inspiro a manhã
cintilo ao vento
solto-me ao passar pelo mundo.
Teresa Balté
Publicada por
Gil Von Doellinger
à(s)
08:32
0
comentários
Etiquetas: Teresa Balté
Quase Tudo

Este adeus à tarde sem me cumprir no dia,
este instante em que tento redimir
este vício de não saber partir...
Bastava fechar os olhos à memória
e perseguir a noite. Imensa.
Quase nada. Quase tudo.
E no entanto, se um gesto não se dobra,
se uma palavra tarda,
desfaz-se o último vestígio da paisagem.
Aurora Simões de Matos
In Uma palavra
Publicada por
Gil Von Doellinger
à(s)
08:23
0
comentários
Etiquetas: Aurora Simões de Matos
[preia-mar, quase poema]

aqui o poema tem praia para molhar os pés
e o poeta os dedos de água da asa da manhã
Pedro Sena-Lino
Publicada por
Gil Von Doellinger
à(s)
08:18
0
comentários
Etiquetas: Pedro Sena-Lino
terça-feira, dezembro 18, 2007
Quase

Perdi quase tudo por quase nada.
Ah, bendito quase, porque insistes em aparecer?
Quero viver sem quase, não quero quase viver.
Quero uma vida completa, nem que para isso tenha também que sofrer..
Quero amar, viver, sofrer, ser feliz plenamente.
Que eu perca tudo algumas vezes, e ganhe tudo muitas outras.
Cansei de ser quase em tudo.
Agora ou sou tudo ou sou nada, cansei desta história de quase.
E estou quase conseguindo.
Maitê Schneider
Publicada por
Gil Von Doellinger
à(s)
18:45
0
comentários
Etiquetas: Maitê Schneider




