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quinta-feira, abril 24, 2008

Estavas sentado



Estavas sentado e havia uma paisagem agreste

nos teus olhos: as nuvens a prometerem chuva,

os espinheiros agitados com a erosão das dunas,

um mar picado, capaz de todos os naufrágios.


O teu silêncio fez estremecer subitamente a casa -

era a força do vento contra o corpo do navio; uma

miragem fatal da tempestade; e o medo da tragédia;

a ameaça surda de um trovão que resgatasse a ira

dos deuses com o mundo. Quando te levantaste,


disseste qualquer coisa muito breve que me feriu

de morte como a lâmina de um punhal acabado

de comprar. (Se trovejasse, podia ser um raio

a fracturar a falésia no espelho dos meus olhos.)


Hoje, porém, já não sei que palavras foram essas -

de um temporal assim recordam-se sobretudo os despojos

que as ondas espalham de madrugada pelas praias.




Maria do Rosário Pedreira




terça-feira, setembro 13, 2005

Hoje podes deitar-te na minha cama...

Hoje podes deitar-te na minha cama
e contar-me mentiras - dizer, não sei,
que o amor tem a forma da minha mão
ou que os meus beijos são perguntas que
não queres que ninguém te faça senão
eu; que as flores bordadas na dobra do
meu lençol são de jardins perfeitos que
antes só existiam nos teus sonhos; e que
na curva dos meus braços as horas são
mais pequenas do que uma voz que no
escuro se apagasse. Hoje podes rasgar
cidades no mapa do meu corpo e
inventar que descobriste um continente
novo - uma pátria solar onde gostavas
de morrer e ter nascido. Eu não me
importo com nada do que me digas esta
amo-te, e amar-te é reconhecer o
pólen excessivo das corolas, o seu vermelho
impossível. Mas amanhã, antes de partires,
não digas nada, não me beijes nas costas
do meu sono. Leva-me contigo para sempre
ou deixa-me dormir - eu não quero ser
apenas um nome deitado entre outros nomes.


Maria do Rosário Pedreira