Eu quero um colo, um berço,
um braço quente em torno do meu pescoço,
uma voz que cante baixo
e que pareça querer fazer-me chorar.
Eu quero um calor no inverno,
um extravio morno da minha consciência.
E depois, sem som,
um sonho calmo,
um espaço enorme como a lua
rodando entre as estrelas.
-
-
Bernardo Soares
Livro do Desassossego
segunda-feira, dezembro 05, 2005
Eu quero um colo
Publicada por
Gil Von Doellinger
à(s)
10:13
1 comentários
Etiquetas: Bernardo Soares
segunda-feira, outubro 31, 2005
[VIAGEM NUNCA FEITA?]
- Naufrágios? Não, nunca tive nenhum. Mas tenho a impressão de que
todas as minhas viagens naufraguei, estando a minha salvação escondida em
inconsciências intervalantes.
- Sonhos vagos, luzes confusas, paisagens perplexas - eis (o que me
resta na alma de tanto que viajei.
Tenho a impressão de que conheci horas de todas as cores, amores de
todos os sabores, ânsias de todos os tamanhos. Desmedi-me pela vida fora e
nunca me bastei nem me sonhei bastando-me.
- Preciso explicar-lhe que viajei realmente. Mas tudo me sabe a constar-me que viajei, mas não vivi. Levei de um lado para o outro, de norte para
sul... de leste para oeste, o cansaço de ter tido um passado, o tédio de viver
um presente, e o desassossego de ter que ter um futuro. Mas tanto me esforço
que fico todo no presente, matando dentro de mim o passado e o futuro.
- Passeei pelas margens dos rios cujo nome me encontrei ignorando. Às
mesas dos cafés de cidades visitadas descobri-me a perceber que tudo me sabia
a sonho, a vago. Cheguei a ter às vezes a dúvida se não continuava sentado à
mesa da nossa casa antiga, imóvel e deslumbrado por sonhos! Não lhe posso
afirmar que isso não aconteça, que eu não esteja lá agora ainda, que tudo isto,
incluindo esta conversa consigo, não seja falso e suposto. O senhor quem é?
Dá-se o facto ainda absurdo de não o poder explicar. . .
Bernardo Soares
Publicada por
Gil Von Doellinger
à(s)
11:27
1 comentários
Etiquetas: Bernardo Soares
quarta-feira, setembro 14, 2005
Aos deuses uma coisa se agradeça
Aos deuses uma coisa se agradeça:
O sono. A vida esqueça
Já que não pode nunca ser feliz.
Por isso, com um rito definido
Encostemos a fronte ao travesseiro
E deponhamos como ante um juiz
O nosso anseio derradeiro.
Sim, o sono, o sossego, o não ser nada
A morte sempre ansiada
(...)
No sossego da fronte que repousa
Alheia a toda a coisa.
O apagamento, bem ou mal, de tudo.
Bernardo Soares
13/01/920
Publicada por
Gil Von Doellinger
à(s)
10:33
0
comentários
Etiquetas: Bernardo Soares

