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quinta-feira, novembro 08, 2007

Ainda te falta

Salvador Dalí - The Ballet of the Flowers

Ainda te falta
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está escrito


Albano Martins
Escrito a vermelho

quinta-feira, outubro 25, 2007

Como um Eco

Edvard Munch - The Scream (1893)



Não tinhas
nome. Existias
como um eco
do silêncio. Eras
talvez
uma pergunta
do vento.


Albano Martins

As Palavras em Trânsito

Wassily Kandinsky - Improvisation (1913)

Resvalas neste sopro.
Sabes
que tens o olhar ferido
desde sempre, que o incêndio
das palavras em trânsito celebra
prescritas sílabas, ancorados
ritos, desprevenidos
equinócios.
Dantes,
havia um mar crispado
na fissura dos lábios. Hoje, apenas
algumas gotas de sal.


Albano Martins

Em que idioma te direi...

Dagmar Zupan - New Relationship

Em que idioma te direi
este amor sem nome
que é servo e rei?

Como o direi?
Como o calarei?


Albano Martins
Em Vocação do Silêncio 1950-1985

quarta-feira, setembro 14, 2005

Acontecimento

Tu choravas e eu ia apagando
com os meus beijos os rastos das tuas lágrimas
riscos na areia mole e quente do teu rosto.
Choravas como quem se procura.
E eu descobria mundos, inventava nomes,
enquanto ia espremendo com as mãos
o meu sangue todo no teu sangue.

Não sei se o mundo existia e nós existíamos realmente.
Sei que tudo estava suspenso,
esperando não sei que grave acontecimento,
e que milhares de insectos paravam e zumbiam nos
meus sentidos.
Só a minha boca era uma abelha inquieta
percorrendo e picando o teu corpo de beijos.

Depois só dei pela manhã,
a manhã atrevida
entrando devagar, muito devagar e acordando-me.
Desviei os meus olhos para ti :
ao longo do teu corpo morriam as estrelas.
A noite partira. E, lentamente,
o sol rompeu no céu da tua boca.


Albano Martins