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quinta-feira, abril 24, 2008

Estavas sentado



Estavas sentado e havia uma paisagem agreste

nos teus olhos: as nuvens a prometerem chuva,

os espinheiros agitados com a erosão das dunas,

um mar picado, capaz de todos os naufrágios.


O teu silêncio fez estremecer subitamente a casa -

era a força do vento contra o corpo do navio; uma

miragem fatal da tempestade; e o medo da tragédia;

a ameaça surda de um trovão que resgatasse a ira

dos deuses com o mundo. Quando te levantaste,


disseste qualquer coisa muito breve que me feriu

de morte como a lâmina de um punhal acabado

de comprar. (Se trovejasse, podia ser um raio

a fracturar a falésia no espelho dos meus olhos.)


Hoje, porém, já não sei que palavras foram essas -

de um temporal assim recordam-se sobretudo os despojos

que as ondas espalham de madrugada pelas praias.




Maria do Rosário Pedreira




terça-feira, abril 01, 2008

Não colher as mãos





















não colher as mãos, alimentar os objectos.

tocá-los devagar, deixando o fio correr desde

o ar até à ponta dessa sombra onde repusa

o mundo. tenho a certeza de que algo se

mexe no silêncio. olho uma vez. olho uma vez.

sei que falas com as coisas. que tens um pacto

com as rãs, outros pequenos animais, certos verdes

hereditários gestos. que nem que quisesses me

poderias contar. e sei de tudo limpo e é para ti que

inclino as mãos quando percorro as cidades e as

esqueço. esta pequena saudade é uma floresta

de silêncios. sou capaz de adormecer sobre o fogo.






Rui Costa

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Os Girassóis




Às vezes ouves-me chorar
não é fácil deixar a tua mão
De quarto em quarto
quem espera
o terror de não haver ninguém
As paisagens alteram-se sem resolução
narrativas imortais desaparecem
e os girassóis assim
vulneráveis a desconhecidas ordens


Tu estás tão perto
mas sofro tanto
porque não vejo
como possa falar de ti
entre dois ou três séculos



José Tolentino Mendonça

sábado, fevereiro 09, 2008




No cortejo das sombras,

incapaz de te encontrar,

tão irreal que és,

como uma manhã de inverno

ou uma rua deserta,


no cortejo das sombras

distingo

o pavor de te desconhecer




Luís Quintais

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Facilmente se constata, pela falta de comentários aos poemas postados, que o trabalho desenvolvido não é apreciado.

Pelo menos da maneira que sempre esperei que o fosse.

Para já, e até futura decisão definitiva, o blogue Traz Outro Amigo Também encontra-se suspenso.

Acredito, pelo que sinto actualmente, que o poema anterior terá sido o último a ser postado.

Não me sinto motivado a continuar...

conformismo



Joan Miro - Kopf















almas que se esvaziam
em correntes paralelas

cadências sem compasso
orquestra de solistas

destilo consciências
seduzo-me em insinuações

saboreio a doutrina
do conformismo


duarte costa
18 de dezembro de 2007

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Subscrevo-me, eu



Marc Chagall - I and the Village

Esgrimas as palavras esfomeadas de justiça,
esgotas esmolas, favores ..o mundo tudo te deve.
Esfregas na cara da multidão os teus feitos, des-
feitos em espirais, enterros e vendadais e vais
por esse mundo ofendendo valores ancestrais.
Atrais a ostentação, a soberba em cada mão e..
o mundo tudo te deve.
Ordenas a submissão, humildade à multidão, a
guerra à irmã do teu irmão e na tua ansiedade
de reconhecimento pisas um caminho sangrento ...
de sofrimento um cento!
Sinto-te o cheiro putrefacto pelo facto de jubilares
com a desgraça de outra raça, cujos ideais vão mais
longe que o teu presente tão ausente de gratidão ...
mas o mundo tudo te deve!
Olho para o espaço vazio, sem alma desde que a
chama foi apagada pela ignomínia da tua mão,
e rendo-me à evidência que ao mundo tudo deves, o que
te atreves, o impropério enlaçado num laço enrolado,
recuei no tempo e via a amiga perversa, o ladrão de
fantasias, uma vida submersa pela mão inconsciente de
uma mente doente .. e tudo deves ao mundo !
Subscreve o subscritor submerso no terror de sublimar
o arrogante!
A plateia que se levante, fechei o instante!


Maria Inez Lemos
In Tinta Fina

Céu Negro



Wassily Kandinsky - 1923 - In the Black Circle

Céu negro
poente
sem cor
de costas pr´o amor!

Sol-pôr
sem cor
sem amor
doente!


É estar
algures
sem ti!


Mário Silva

O que é certo é que gostei de ti



Alfred Gockel - Affection

O que é certo é que gostei de ti.
O resto não: se exististe,
e se assim foi, qual a cor dos olhos, ora verdes
ora cinzentos, deles levantou-se uma vez
um bando de andorinhas. Quais. As rápidas,
as que não andam, as que se amam no ar.
Como foi. Ficaste doente
ou coisa assim, levaram-te, muito se passou,
acho que ia ter outro filho e esqueci-me de ti
até ouvir-te, esta noite, a horas impossíveis,
vem comigo, é tempo. Larga tudo e sai,
espero por ti ao pé da cancela.
Mas cheguei lá e o trinco
estava solto, batia ao vento
contra o poste, fechei-o, voltei para trás,
a pensar em ti, que estiveste lá,
sabe-o Deus, que abriste a cancela,
que gostei de ti e também
que a porta não encaixava bem.


Eva Gerlach

terça-feira, janeiro 01, 2008

Caminho



Dennis Dunton - Bodega Road

Perto está
o caminho
que longe está.
Lá
a fonte canta
véus de luar
na liquidificada planície
do teu olhar.

Hoje
talvez a tua voz
dissipe a nuvem que cobriu
o brilho das estrelas
e os pássaros voltem a cantar
no ramo de pessegueiro
que o ano novo floriu.


Jorge Arrimar
In Secretos sinais

podias aparecer mais vezes



Andy Warhol - Birth of Venus

podias aparecer mais vezes percorrer a
pressa deste café (estranho arquipélago de
percursos) sua história somos quem a

escreve (alguém a quem se autoriza uma
cadeira vazia, o gesto de calçar o pé mais
curto da mesa,.o render de empregados
cedo recolhendo a despesa) este poema

tem vírgulas, o meu primeiro cigarro (doze
passas de ano novo) tínhamos ambos quinze
anos deves ir quase nos trinta (eu dentro dos
vinte e seis) penso não ter conseguido crescer

tanto como tu. vive-nos pouco um cigarro:
podias ficar esse tempo os homens como
as garrafas devem ser despidos por dentro


João Luis Barreto Guimarães

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Quase-Nada



M. Escher - Drawing Hands

Suplicantes,
nuas,
duas mãos em prece
aguardando o milagre,
que acontece.
Uma coisa que não,
um quase-nada,
e os sonhos voltarão,
de madrugada...


Manuela Oracy
In Súbito

Quase não ouso escrever



Andy Warhol - The World

Quase não ouso escrever
já disse tudo

articulo a voz pelo caminho:
inspiro a manhã
cintilo ao vento
solto-me ao passar pelo mundo.


Teresa Balté

Quase Tudo



Claude Monet - Garden in Giverny

Este adeus à tarde sem me cumprir no dia,
este instante em que tento redimir
este vício de não saber partir...
Bastava fechar os olhos à memória
e perseguir a noite. Imensa.
Quase nada. Quase tudo.
E no entanto, se um gesto não se dobra,
se uma palavra tarda,
desfaz-se o último vestígio da paisagem.


Aurora Simões de Matos
In Uma palavra

[preia-mar, quase poema]



Salvador Dali - View to the Beach

aqui o poema tem praia para molhar os pés
e o poeta os dedos de água da asa da manhã


Pedro Sena-Lino

terça-feira, dezembro 18, 2007

Quase



Ann Huston - Almost Home

Perdi quase tudo por quase nada.
Ah, bendito quase, porque insistes em aparecer?
Quero viver sem quase, não quero quase viver.
Quero uma vida completa, nem que para isso tenha também que sofrer..
Quero amar, viver, sofrer, ser feliz plenamente.
Que eu perca tudo algumas vezes, e ganhe tudo muitas outras.
Cansei de ser quase em tudo.
Agora ou sou tudo ou sou nada, cansei desta história de quase.
E estou quase conseguindo.


Maitê Schneider

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Vivo sobre um fio...



Susan Norris - Stringy Hair


Vivo sobre um fio de aranha esticado entre dois mundos paralelos.
Sou esse fio nesse lar de mentira
passo os dias entre o presente e o futuro condicional
do verbo maior de todos
O verbo que a morte não conjuga
Eu conjugo.
O verbo que me quer fazer um filho sem pecado,
de todos os meus filhos o mais amado.
O filho sonho.
Vivo este fio mentira caverna sombra esta lama esta luta esta lâmina aos pulsos da coragem tatuada
Tudo por um grito em que me evada sem a dor que me resta em cada cicatriz.
Levo a minha fauna para a terra dos sonhos.
Onde não se coma poesia não posso ser feliz.


Ana Rita Calmeiro

Queria que me acompanhasses...



Claude Monet - 1871 - Windmill at Zaandam Netherlands


queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos

Ana Paula Inácio

sexta-feira, novembro 30, 2007

Eras tu a claridade



Ingrid Sehl - Bright Yellow Flower on Papyrus


O tempo, subitamente solto
pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade
a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei
antes de te conhecer.
Eram os teus olhos,
labirintos de água,
terra, fogo, ar,
que eu amava
quando imaginava que amava.
Era a tua
a tua voz que dizia
as palavras da vida.
Era o teu rosto.
Era a tua pele.
Antes de te conhecer,
existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens
que olhava ao fim da tarde.
Muito longe de mim,
dentro de mim,
eras tu a claridade.


José Luís Peixoto

(Agradecimento a quem publicou este poema no seu Hi5 e desse modo me permitiu desfrutar dele. Obrigado por nos teres apresentado...)

quinta-feira, novembro 29, 2007

Amigos



Pablo Picasso - The Dance of Youth


Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.

A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis o que permite que o objecto dela se divida em outros afectos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.

E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências...

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.

Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar.

Muitos deles estão lendo esta crónica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não o declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo!
Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem-estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.

Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer...

Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!

A gente não faz amigos, reconhece-os.


Vinicius de Moraes
(1913-1980)