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segunda-feira, abril 17, 2006

Aleluia !

Como de um gesto
esboçado só pelo olhar
a chama de um círio
agita-se cá por dentro.
Em sincronia, algures
pela garganta de vidro
do meu tempo,
escorre um instante
com a cintilação
de um sentimento feliz.
De facto, a chama íntima
arde ainda
como uma vitória
arde... celebração
arde... solidária
do fogo vivo
de novo reinventado
pelo melhor sentido
da vida:
a esperança.
E a chama agita-se,
parece bailar
aprimorando em mim
o sorriso
para o melhor
dos Domingos...
parece bailar
avivando uma ideia doce
num nicho enfeitado
da minha memória
... bailar enquanto
a ponta dos meus dedos
trazem-me aos lábios
uma amêndoa que ensinou
o azul celeste
à algibeira obscura
de um casaco.
Nisto decorrem
um punhado de passos
do nosso caminho
e floresce outra Páscoa
enfeitada de primavera.
Aleluia!

________________LuMe
(Luis Melo)

toca-me...


descolo a voz violenta
e brota dos meus lábios o gemido

por ora o corpo contesta
caminhar em pedras arruinadas

tarda um chegar

toca-me a noite
e
nas veias corre um sangue
que não é meu

sem luz a cidade
mergulha em sombras infindas

toco no vazio de um corpo,
no frio corroído pela visão queimada

pesa a fria raiz da noite
não falo, apenas respiro
e fulguro com o avultar da estrela

tarda o teu chegar
o ar iluminará à força teu rosto

l.maltez

sexta-feira, abril 07, 2006

Perdido

Através da sala
diagonal
vejo H
a um canto.

Começo a andar,
devagar,
olhando em volta;

Aproximo-me de H,
observo-a
dos pés à cabeça;

Avanço as mãos;

Levo os dedos,
aos seus cabelos;

Percorro,
aquela nuca
inalando, fundo,
o seu perfume;

Beijo,
repetidamente
o pescoço de H;

Sussurro
ao seu ouvido
palavras quentes
de entre Verão
e inferno;

Perco o norte
descobrindo H
nos lábios
sôfregos
de um imenso
beijo
tresloucado;

Latejante,
perco a respiração
e reconheço
o meu coração
desmembrado;

Sinto-me,
enfim.... húmido!
...
«pai» is now known as «mãe»
«ovo» was kicked by «not»
«ide» não era preciso tanto
«mãe» credo
«ali» não cantes ainda
«Kro» tu mandas ...
«Pel» inda bem ... fica mais um pouco
«Som» Isto anda a perder pedal
«amo» GivesPelReallyHotLongSuperAndReally
EroticEarthShatteringSoulBurningOhMyGawd
IfYouStopNowI'llKillYouBetterThanHeaven
YetHotterThanHellGropingDon'tStopTouchingMe
BloodBoilingOhOhOhOhGawdOhGawdOhGawd
SoulStealingDreamMakingCloseToXRatedHand
TremblingKneeBucklingHeartStoppingBody
TinglingEarthQuakeMakingPassionExploding
WetDeepHardLongLingeringKiss!IJustMadeYouMine!
YourMove...
«Pel» amo... que mal eu fiz ?
«Cão» exibições baratas...
«Kro» ...poupem-me
«Dan» vícios de cão
«Out» se contares poderei infirmar
«Som» deve ser o menos mau
«aly» uma série de coisinhas
«inv» desse género
«Pey» ...a pairar ...sem parar
«Foi» (:)Bom Dia
«Bom» :)
«Dia» (:
«Pey» afinal não é mau de todo ...
«afinal não é mau de todo» Pey [[]]
...

Através da sala,
diagonal
vejo H
a um canto.

Começo a andar,

devagar

depois

apresso-me,
corro
e mais e ainda mais, muito, tanto

Então... paro.

Sei que
estou fora
e fora
é como dentro
mas parece
nada!

Sem espanto,
para não variar
estaquei,
inadvertidamente,
a um passo
de me encontrar
como sempre...

Estou perdido !

.
______ LuMe
(Luis Melo)

quinta-feira, março 23, 2006

Etiqueta

Veja-se a minha mão.
Diz aqui, algures:
“Made in Portugal.” Pois!
Algures e genericamente:
“Baixo teor de malícia”
Mais ainda:
“Isento de corantes e conservantes”
e de qualquer perversão avulsa
Algures, exactamente.
Ah! e “não lavar na máquina.”
Claro que sim!
Diz mesmo aqui na minha mão!
Garantiu-me a cigana.
Teve de ser num sábado,
que em qualquer outro dia
estaria ali um polícia
fardado de indiferença
e intransigência
relativa e respectivamente
à minha mão e à cigana.
Reparei que era estrábica.
Ter-lhe-ei dado cem escudos
e ela leu-me só uma linha
a mais legível e fidedigna
na etiqueta do meu viver.
Fiquei quase tão contente
como meia hora antes
ao passar por mim,
risonho e cachimbante
um poeta chamado
David Mourão Ferreira.
Foi no Jardim da Estrela
ao fim da tarde.

Teve de ser num sábado!


Luis Melo

sexta-feira, março 17, 2006

As saudades são muitas...

Deixo um grande abraço a todos com a esperança de um regresso em força e em breve.
Lamento se desaponto alguém mas prometo que quando eu regressar será com força.

Hei-de recompensar-vos.

Sim, porque as saudades são mesmo muitas...

domingo, fevereiro 26, 2006

Saudade

Acende-se no peito um fogo imenso
Flutua ao desvario, o meu desejo
(Qual chama viva de um ardor intenso
Buscando em tua boca um doce beijo)

Um carinho... uma ternura... o ensejo
De te sentir... de te poder amar!
Porque as horas porque passo e te não vejo
São as mais longas e difíceis de passar...

Mas a alegria de ver-te... num momento...
Apagará todo este sofrimento,
Toda esta sede... (o coração mo diz)

E antes que em teus braços venha o sono,
Meu corpo será teu... em abandono...
E tu em mim... te sentirás feliz!


Maria Manuela Mendonça
In- Poesia no ar

terça-feira, fevereiro 21, 2006

(.. .)
E o Porto de Herculano,
Como Lisboa é de Garrett.
Lisbôa em gêsso branco, o Porto em pedra escura,
Sobre os abruptos alcantís do Douro;
Esse rio que vem, de longe, solitario,
Cobrir-se de asas brancas de navios
E de negros canudos de vapores.
Encostados aos cais, depõem a férrea carga.
Outros, vão demandando a barra e o farolim,
Que dá uma luz, tão triste! em noites invernosas.

Distante, no poente, esfuma-se uma nodoa,
Em verdes tons fluidos que palpitam
Numa nevoa indecisa, vaga imagem
Da tristeza do mar pintada em nossos olhos.
Porto da minha infância!
A primeira impressão que me causaste
Tenho-a, cheia de espanto, na memória,
Cheia de bruma e de granito!
É uma impressão de inverno,
Sombra cinzenta, enorme, donde irrompe
Alto cipreste empedernido,
No meio de sepulcros habitados. (...)



Teixeira de Pascoais

terça-feira, janeiro 31, 2006

Desejávamo-nos tanto e nem sabíamos

Desejávamo-nos tanto e nem sabíamos.
Só o descobrimos quando sentimos necessidade
de sacudir o pó
de arrumar as gavetas
de levantar os tapetes
de estender a nossa nudez no chão de madeira corrida.
Ao mesmo tempo soltava-se o vento no berrar das ondas
e a areia fina desnudava-se sem recato
na berma do mar.
Soltava-se a minha e a tua liberdade
na folia da noite.
E o orvalho pousava sereno
nos seios da madrugada.


Adelaide Graça

segunda-feira, janeiro 23, 2006

desilusão...



a desilusão entrou
na porta trancada

a duplicidade irrompeu,
entrou pela noite
inóspita de palavras brancas

escapou a saudade
dos pedaços de uma aventura
caídos de um corpo

o mar, chegou até mim
num silêncio impenetrável
e reconheci-te na sombra,
ao anoitecer

murmúrios envolventes
de promessas e desejos
um amo-te!
dito a cada instante
em horas somadas, perdidas
de noites seguidas

a desilusão entrou
e abriu a porta...


l.maltez

sexta-feira, janeiro 06, 2006



MARÍTIMO


Os ventos são pequenos - nem gemido
de velas nem cordame de folhas.
Sentada num café, conjuro-lhes os cantos, elevo
os olhos como mastro

ao sol. Mas os ventos são poucos
ou os olhos humildes não bastante.
Que o cobertor de espuma se levante:
mesmo de enganos seja só um canto.




Leça da Palmeira, Salão de Chá da Boa Nova



Ana Luísa Amaral

sábado, dezembro 31, 2005

Duas linhas apenas

Se se apega a ti o pó das palavras mortas,
lava a tua alma no silêncio



Rabindranath Tagore

sexta-feira, dezembro 30, 2005

Sem antes nem depois

Quando a chama retoma o lugar das cinzas
na lareira adormecida,
quando os pássaros voltam aos ninhos
deixados à mercê do tempo,
quando a terra num pousio pasmo
acorda remexida, já fecundada,
quando os filhos crescem
e o espaço em nós leveda,
e engrandece, de tanto amor,
os livros empoeiram-se
as páginas amarelecem
o poema fica sufocado no meio da palavra.
Os amigos, quero-os á minha volta
Na mesa farta de versos que se soltam
Nos sabores que todos trazem
Nas gargalhadas que todos provocam
Nos crepes e biscoitos a escorrerem paladares.
Nas festas e nos encontros.
Nos momentos sem antes nem depois.
Quando a chama retoma o lugar das cinzas
naquela fornalha de agora
o gato ajeita-se no cesto da lenha
com um preguiçar inigualável a nenhum mortal.
A casa veste-se de feitos e factos.
Ao paladares fazem-se de poemas
E os momentos reproduzem-se.


Adelaide Graça
In – NO VÃO DA AUSÊNCIA

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Férias é quando ainda se faz menos do que normalmente se faz...

quarta-feira, dezembro 21, 2005

[ Vejo ]

Abro os olhos
vejo as coisas,
vejo tudo em volta...
Cá dentro,
vejo-te a ti.

Fecho os olhos
vejo o nada,
vejo tudo
de não ver
e assim mesmo
vejo-te a ti,
dentro de mim,
a chamar-me
lá de fora.


___________LuMe
Luis Melo

segunda-feira, dezembro 19, 2005

matei o tempo...


o silêncio escutei-o à beira do mar
pisando pausadamente a areia branca e húmida

o céu fechava-se a cada passo meu
senti lentamente a libertação do dia,

o sol teimava partir
deixava o reflexo nas águas do mar

o momento era de lembranças
estranhas, rasgadas no meio de um olhar

lembranças vindas da música
do ruído das ondas do mar,
sons dedilhados e longínquos

luz negada na sombria terra
inflexível à brisa que perpassa

um dizer que estava ali, onde acordam
deleitáveis os dias sem receios
respirando pensamentos inquietos

e vi partir a bruma encolhida nas nuvens
nuvens espantadas, sem sol.

no silêncio matei o tempo.


l.maltez

ABSURDIA

[ 2 ]

Num mural leio escritas
a tinta espessa,
aparentemente absurda
e, enfim, de veludo,
leio, sim,
como que sânscritas
palavras diligentes
a informar que:

"Os homens são sombras,
fúteis e abundantes,
da mulher que dança
ao som da luz do sol."

Leio mais:
"Qualquer sombra
bebe do chão o aparente
da cor que emerge
até do mais absurdo
dos veludos".
Leio, como já disse
o inverosímil sânscrito
no absurdo da tinta,
no moral circunstante
ao meu olhar.

É então que pergunto:
"Meu Deus, onde estou?"
e a única resposta
é um qualquer colapso
no termo de uma cassete
dentro da máquina;
essa mesmíssima
a que chamam de Vídeo.
Impõem-se, explicativa,
uma porção da realidade;
tosca a porção
abrupta a realidade
e em suma
o que de mais singelo
se faz subtraível
como fita escura e trilhada
nas entranhas de um engenho.

Imagens, sons,
verdades diversas
e mastigadas por desventura;
desvirtuadas,
como veludo absurdo
aparentemente como tinta
e palavras num mural.

"Os homens são sombras..."
e eu tenho medo
de confundir o fim
com outra anomalia
engenhosa.
Tenho medo
de não entender
e de ninguém avisar
quando tudo, de facto,
acabar.

__________________LuMe
Luis Melo

abismo

deste abraço
ao avanço da estrela mais íngreme
- apenas um passo,

os lugares menos reconhecíveis,
as lembranças mais frouxas
e uma voz rouca
fecham sobre mim seus lábios de tempestade
no pálio pálido da madrugada,

é tarde,

te amo


Pedro Lage

Comecei a ler...

Comecei a ler quando de noite apenas te
Imaginava na nudez dos meus sonhos
ardendo um calor e me chamavas água

ainda hoje te chamo metáfora
(e a tua voz não se calou)


Pedro Sena-Lino

Anjo I

É possível amar-te
sendo tu o anjo que traduz
a noite nas palavras mais
de carne ou de estrelas,
o significado perfeito da geometria
com que articulo a memória
nunca parada dos dedos
que escrevem.


Pompeu Miguel Martins
In O livro do anjo

terça-feira, dezembro 13, 2005

Escrever

Escrevo
para lembrar
o que quero esquecer;
para divulgar
o que quero esconder.
Escrevo
para lembrar
o que não existe,
para saudar
o que foi e não é.
Escrevo
para me esquecer de ti
e para lembrar
que não há Eu sem Ti.
Escrevo
para me afastar de ti,
para esquecer
que estás sempre perto
de mim.
Escrevo
para seres só meu,
por breves instantes,
e te ver partir
nos regaços alheios
sem sentir,
sem ser,
sem nada.
Por isso escrevo.
Para ti. Para mim.
Porque sufoco.
E porque sim.


Rita Sá
12/11/95