Saudade
Acende-se no peito um fogo imenso
Flutua ao desvario, o meu desejo
(Qual chama viva de um ardor intenso
Buscando em tua boca um doce beijo)
Um carinho... uma ternura... o ensejo
De te sentir... de te poder amar!
Porque as horas porque passo e te não vejo
São as mais longas e difíceis de passar...
Mas a alegria de ver-te... num momento...
Apagará todo este sofrimento,
Toda esta sede... (o coração mo diz)
E antes que em teus braços venha o sono,
Meu corpo será teu... em abandono...
E tu em mim... te sentirás feliz!
Maria Manuela Mendonça
In- Poesia no ar
domingo, fevereiro 26, 2006
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Teresa lucas
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terça-feira, fevereiro 21, 2006
(.. .)
E o Porto de Herculano,
Como Lisboa é de Garrett.
Lisbôa em gêsso branco, o Porto em pedra escura,
Sobre os abruptos alcantís do Douro;
Esse rio que vem, de longe, solitario,
Cobrir-se de asas brancas de navios
E de negros canudos de vapores.
Encostados aos cais, depõem a férrea carga.
Outros, vão demandando a barra e o farolim,
Que dá uma luz, tão triste! em noites invernosas.
Distante, no poente, esfuma-se uma nodoa,
Em verdes tons fluidos que palpitam
Numa nevoa indecisa, vaga imagem
Da tristeza do mar pintada em nossos olhos.
Porto da minha infância!
A primeira impressão que me causaste
Tenho-a, cheia de espanto, na memória,
Cheia de bruma e de granito!
É uma impressão de inverno,
Sombra cinzenta, enorme, donde irrompe
Alto cipreste empedernido,
No meio de sepulcros habitados. (...)
Teixeira de Pascoais
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Teresa lucas
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terça-feira, janeiro 31, 2006
Desejávamo-nos tanto e nem sabíamos
Desejávamo-nos tanto e nem sabíamos.
Só o descobrimos quando sentimos necessidade
de sacudir o pó
de arrumar as gavetas
de levantar os tapetes
de estender a nossa nudez no chão de madeira corrida.
Ao mesmo tempo soltava-se o vento no berrar das ondas
e a areia fina desnudava-se sem recato
na berma do mar.
Soltava-se a minha e a tua liberdade
na folia da noite.
E o orvalho pousava sereno
nos seios da madrugada.
Adelaide Graça
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segunda-feira, janeiro 23, 2006
desilusão...

a desilusão entrou
na porta trancada
a duplicidade irrompeu,
entrou pela noite
inóspita de palavras brancas
escapou a saudade
dos pedaços de uma aventura
caídos de um corpo
o mar, chegou até mim
num silêncio impenetrável
e reconheci-te na sombra,
ao anoitecer
murmúrios envolventes
de promessas e desejos
um amo-te!
dito a cada instante
em horas somadas, perdidas
de noites seguidas
a desilusão entrou
e abriu a porta...
l.maltez
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sexta-feira, janeiro 06, 2006

MARÍTIMO
Os ventos são pequenos - nem gemido
de velas nem cordame de folhas.
Sentada num café, conjuro-lhes os cantos, elevo
os olhos como mastro
ao sol. Mas os ventos são poucos
ou os olhos humildes não bastante.
Que o cobertor de espuma se levante:
mesmo de enganos seja só um canto.
Leça da Palmeira, Salão de Chá da Boa Nova
Ana Luísa Amaral
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sábado, dezembro 31, 2005
Duas linhas apenas
Se se apega a ti o pó das palavras mortas,
lava a tua alma no silêncio
Rabindranath Tagore
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sexta-feira, dezembro 30, 2005
Sem antes nem depois
Quando a chama retoma o lugar das cinzas
na lareira adormecida,
quando os pássaros voltam aos ninhos
deixados à mercê do tempo,
quando a terra num pousio pasmo
acorda remexida, já fecundada,
quando os filhos crescem
e o espaço em nós leveda,
e engrandece, de tanto amor,
os livros empoeiram-se
as páginas amarelecem
o poema fica sufocado no meio da palavra.
Os amigos, quero-os á minha volta
Na mesa farta de versos que se soltam
Nos sabores que todos trazem
Nas gargalhadas que todos provocam
Nos crepes e biscoitos a escorrerem paladares.
Nas festas e nos encontros.
Nos momentos sem antes nem depois.
Quando a chama retoma o lugar das cinzas
naquela fornalha de agora
o gato ajeita-se no cesto da lenha
com um preguiçar inigualável a nenhum mortal.
A casa veste-se de feitos e factos.
Ao paladares fazem-se de poemas
E os momentos reproduzem-se.
Adelaide Graça
In – NO VÃO DA AUSÊNCIA
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segunda-feira, dezembro 26, 2005
Férias é quando ainda se faz menos do que normalmente se faz...
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Gil Von Doellinger
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quarta-feira, dezembro 21, 2005
[ Vejo ]
Abro os olhos
vejo as coisas,
vejo tudo em volta...
Cá dentro,
vejo-te a ti.
Fecho os olhos
vejo o nada,
vejo tudo
de não ver
e assim mesmo
vejo-te a ti,
dentro de mim,
a chamar-me
lá de fora.
___________LuMe
Luis Melo
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segunda-feira, dezembro 19, 2005
matei o tempo...

o silêncio escutei-o à beira do mar
pisando pausadamente a areia branca e húmida
o céu fechava-se a cada passo meu
senti lentamente a libertação do dia,
o sol teimava partir
deixava o reflexo nas águas do mar
o momento era de lembranças
estranhas, rasgadas no meio de um olhar
lembranças vindas da música
do ruído das ondas do mar,
sons dedilhados e longínquos
luz negada na sombria terra
inflexível à brisa que perpassa
um dizer que estava ali, onde acordam
deleitáveis os dias sem receios
respirando pensamentos inquietos
e vi partir a bruma encolhida nas nuvens
nuvens espantadas, sem sol.
no silêncio matei o tempo.
l.maltez
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lena
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ABSURDIA
[ 2 ]
Num mural leio escritas
a tinta espessa,
aparentemente absurda
e, enfim, de veludo,
leio, sim,
como que sânscritas
palavras diligentes
a informar que:
"Os homens são sombras,
fúteis e abundantes,
da mulher que dança
ao som da luz do sol."
Leio mais:
"Qualquer sombra
bebe do chão o aparente
da cor que emerge
até do mais absurdo
dos veludos".
Leio, como já disse
o inverosímil sânscrito
no absurdo da tinta,
no moral circunstante
ao meu olhar.
É então que pergunto:
"Meu Deus, onde estou?"
e a única resposta
é um qualquer colapso
no termo de uma cassete
dentro da máquina;
essa mesmíssima
a que chamam de Vídeo.
Impõem-se, explicativa,
uma porção da realidade;
tosca a porção
abrupta a realidade
e em suma
o que de mais singelo
se faz subtraível
como fita escura e trilhada
nas entranhas de um engenho.
Imagens, sons,
verdades diversas
e mastigadas por desventura;
desvirtuadas,
como veludo absurdo
aparentemente como tinta
e palavras num mural.
"Os homens são sombras..."
e eu tenho medo
de confundir o fim
com outra anomalia
engenhosa.
Tenho medo
de não entender
e de ninguém avisar
quando tudo, de facto,
acabar.
__________________LuMe
Luis Melo
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Luis Melo
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abismo
deste abraço
ao avanço da estrela mais íngreme
- apenas um passo,
os lugares menos reconhecíveis,
as lembranças mais frouxas
e uma voz rouca
fecham sobre mim seus lábios de tempestade
no pálio pálido da madrugada,
é tarde,
te amo
Pedro Lage
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Comecei a ler...
Comecei a ler quando de noite apenas te
Imaginava na nudez dos meus sonhos
ardendo um calor e me chamavas água
ainda hoje te chamo metáfora
(e a tua voz não se calou)
Pedro Sena-Lino
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Anjo I
É possível amar-te
sendo tu o anjo que traduz
a noite nas palavras mais
de carne ou de estrelas,
o significado perfeito da geometria
com que articulo a memória
nunca parada dos dedos
que escrevem.
Pompeu Miguel Martins
In O livro do anjo
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terça-feira, dezembro 13, 2005
Escrever
Escrevo
para lembrar
o que quero esquecer;
para divulgar
o que quero esconder.
Escrevo
para lembrar
o que não existe,
para saudar
o que foi e não é.
Escrevo
para me esquecer de ti
e para lembrar
que não há Eu sem Ti.
Escrevo
para me afastar de ti,
para esquecer
que estás sempre perto
de mim.
Escrevo
para seres só meu,
por breves instantes,
e te ver partir
nos regaços alheios
sem sentir,
sem ser,
sem nada.
Por isso escrevo.
Para ti. Para mim.
Porque sufoco.
E porque sim.
Rita Sá
12/11/95
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Concerto para os peixes que habitam os meus sonhos
O som dos grilos é estonteante
e o marulhar junta-se
nesta orquestra de cio
estranha atitude
destes insectos que migraram
dos campos prenhes de rubras papoilas
para virem escutar os peixes
É caótico este momento de êxtase
em que a lua nua de luz
se mostra em toda a sua nudez muda
e excitante
porque toda a natureza desperta
da letargia que o verão
provoca
trazendo cheiros distantes
e persistentes
porque
as narinas fremem
de desejo fundeado
neste mar
onde campeiam
espumas
e o que resta de nós
servirá de repasto
aos pássaros loucos
que se precipitam em voos rasantes
aqui mesmo ao lado do presente incerto
porque não sabemos se
o futuro nos levará
em espiral
rumo ao novo mundo
que fora anunciado por ti
© Rogério Saviniano Telo
Funchal
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Soletrar o dia
Tenho tudo por dizer e gasto palavras
para lá chegar. Não sei se me afasto
ou se chego perto. Se alguma vez rocei
a pele do essencial. E pergunto-me sempre
para quê estas palavras que me teimam.
O passado não é o que está feito,
mas o que palavra alguma fará de novo.
Por isso leio sempre no futuro, mas não sei
para que lado do tempo escrevo. E se soubesse
que arrasto as letras como um caranguejo
diria que só tenho esta mão de palavras.
Soletro os dias em cada coisa que me olhar
quando me sinto a vê-la. É tudo.
E não há desculpas para o que faço.
Rosa Alice Branco
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Sonho nada...
sonho nada
sonho a chuva,
e o âmago denso das pedras,
e soturnos olhos vegetais por entre
musgos e muros e quintais.
sonho chuva e água e humidade
e deuses e demónios ancestrais
e o sol do deserto. E sou miragem
na insustentável, branca claridade.
sonho a terra, ebúrneas nuvens,
limbos e rasgos de horizontes
a sangrar sonho e luz e escuridão,
na boca ávida das fontes.
sonho-me antes do meu sonho
e antes desse, em lava e fogo
ainda outros sonhos não sonhados,
em terra e água e luz eu os componho.
e nada a não ser luz e terra e água
e nada sem ser eu, em carne e lava
e nada que não fira e sangre e lave
nada mais neste sonho, senão mágoa.
Rosa Bento
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Sem nada de meu
Dei-me inteiro. Os outros
fazem o mundo (ou crêem
que fazem). Eu sento-me
na cancela, sem nada
de meu e tenho um sorriso
triste e uma gota
de ternura branda no olhar.
Dei-me inteiro. Sobram-me
coração, vísceras e um corpo.
Com isso vou vivendo.
Rui Knopfli
Em Mémoria Consentida
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TRISTEZA
Ser o segredo íntimo do pranto
cerzir as mágoas sem nenhuma esperança
carpir cada palavra abandonada
com raiva e ofício muito antigos
deixar o poema ser um cão vadio
Chorar desmoronando-se por dentro
ser a curva apertada onde se morre
o abismo mais puro
o não sonhar
tristeza de raiz melancolia
asa morta no vento do destino
Rui Namorado
In Sete Caminhos
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10:42
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