
Vinte e um. Noite. Segunda-feira.
A silhueta da cidade na neblina.
Algum desocupado inventou
essa história de que há amor no mundo.
E por preguiça ou tédio,
todos acreditaram nele e assim viveram:
esperando encontros, temendo rupturas
e cantando canções de amor.
Mas a outros será revelado o segredo
e sobre estes cairá o silêncio...
Eu tropecei nele casualmente e, desde então,
sinto-me como se estivesse doente.
Anna Akhmatova
1917
sexta-feira, outubro 26, 2007
Vinte e um...
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Quando Ficas Sozinho
do que foste:
uma manhã
Contemplada da janela encostada
da varanda; alguns passos
harmoniosos que não seguiste
para não derramar teu gozo;
umas quantas palavras
que te modificaram mais que o tempo;
um olhar que se afogou
Como luz em tuas veias;
uma viagem que não querias
terminar nunca; tua alma ausente
do que te esperava
ao ficares sozinho.
Ángel Crespo
In Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea
(Selecção e Tradução de José Bento)
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quinta-feira, outubro 25, 2007
As Palavras em Trânsito

Resvalas neste sopro.
Sabes
que tens o olhar ferido
desde sempre, que o incêndio
das palavras em trânsito celebra
prescritas sílabas, ancorados
ritos, desprevenidos
equinócios.
Dantes,
havia um mar crispado
na fissura dos lábios. Hoje, apenas
algumas gotas de sal.
Albano Martins
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Em que idioma te direi...

Em que idioma te direi
este amor sem nome
que é servo e rei?
Como o direi?
Como o calarei?
Albano Martins
Em Vocação do Silêncio 1950-1985
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Máquina do Tempo

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.
ANTÓNIO GEDEÃO
Poesias Completas, 1975
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A delicada majestade

Um dia poderás chegar, tu que nunca chegas
porque não és um tu
ou porque chegas sempre em não chegares.
Subi um dia por uma escada silenciosa
e em torno era um pomar branco, tranquila maravilha
e eu senti, eu vi, adivinhei
a divindade amada, a soberana e delicada
majestade. Que suavidade de oriente,
que suave esplendor! Era o fulgor de um sono
límpido, entre olhos verdes, entre mãos verdes.
E num repouso de oiro adormecido era quase um rosto
Antiquíssimo e inicial. Contemplava
a quietude de um imenso nenúfar
e a fragância era quase visível como um mar entreaberto.
Era um rio detido ou uma tersa nuca ou um braço estendido
que descansa entre ribeiros primaveris
ou era antes a serena felicidade
e era uma boca da terra que não cantava que não dizia
o silêncio ardente que no peito de espuma cintilava.
António Ramos Rosa
In Acordes
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A Ruptura Salva um Coração

já lhe rompi
as asas,
quebrei
seu voo
com meu voo,
coloquei-a
em sua legítima
sombra,
seu desejo
que dor
quebrar-lhe sua dor!
e chorará
chorarei
mas o amor
exige sua derrota,
seus castelos
de arame,
seus cavalos
com freio.
traz uma cor
torcida em cada roda
para seu ofício de
tropeçador sem fim,
mas não virá
esta tarde, também
não vai querer arrastar
seus cotos de
aço,
não vai querer,
uma vez mais,
ser em sua
dor.
eu a quebro
em meu pranto
e em meu quebranto
me quebro,
e o anjo, roto,
rompe a luz
e em sua sombra
se dilui.
Pablo del Barco
Em Os Anjos do Não
Tradução de Cecília Pereira
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COMO TE EXTINGUES em mim:
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No espelho

No espelho
o olhar desaparece
às vezes desalojado
no meu próprio corpo
às vezes
angustiado
pela angústia
que rola
para lá e para cá como destroços
na rebentação
raspo com um dedo
o vidro
e oiço o mundo gritar.
Pia Tafdrup
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Escrevo-te cartas...
a morada desaparece
sempre que tentamos encontrar
não uma porta, mas uma casa inteira.
desligo tudo dentro deste quarto.
ouço, incompleto, - com a janela
entreaberta ao fresco da noite -
cada pequeno ruído,
como se fosse um código para nos entendermos.
Ruy Ventura
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Antes que o verão chegue...

Antes que o verão chegue
e as longas tardes
se espalhem pelo coração
e te prendam ao desgaste habitual
toca uma palavra
para que permaneça
na minha boca
onde mais ninguém
possa ficar confundido.
Uma apenas.
E vê como pesa menos sobre o silêncio
a sombra que vais mover.
Vasco Ferreira Campos
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Pedaços

Estou estilhaçada
silêncios saem da boca
mansos
estava desenhando
palavras
perdi o jeito de amanhecer
tenho tantos pedaços
que sou quase infinita
Vera Lúcia Oliveira
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quarta-feira, outubro 24, 2007
Tenho uma coisa para te entregar...
Tenho uma coisa para te entregar
uma pedra a pôr no chão da rua,
uma luar presença sob o sol.
Tenho uma coisa para te devolver,
para ficar minha sendo tua,
aquecida no tempo e nestes olhos.
Tenho uma coisa que eu te posso dar
que é o vento a vir atrás do verde
e a dizer azul no teu cabelo
Pedro Tamén
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Castigo

Prendes-me no freio
Rasgas-me a carne
Bates-me na alma
Com toda a força
Do teu desamor.
Eu quebro perdida
Triste
Enlouquecida
Por te amar
[sem mais]
Demais.
Rita Sá
17/12/1999
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terça-feira, outubro 23, 2007
uma vida

um rasto breve
de passos
o leve suspiro
da brisa
o brilho fugaz da lua
na areia tépida
logo diluídos
nos rumores da maré
Carlos Alberto Silva
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segunda-feira, outubro 22, 2007
Eu queria trazer-te uns versos muito lindos

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!
Mário Quitana
"Estes versos são publicados nesta data, 30 de julho de 2006, como uma homenagem ao poeta Mario Quintana, que estaria completando 100 anos de idade, se vivo fosse."
Extraído do livro "Quintana de bolso", Editora LP&M Pocket - Porto Alegre (RS), 2006, pág. 59, seleção de Sergio Faraco.
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Ainda ontem pensava que não era

Ainda ontem pensava que não era
mais do que um fragmento trémulo sem ritmo
na esfera da vida.
Hoje sei que sou eu a esfera,
e a vida inteira em fragmentos rítmicos move-se em mim.
Eles dizem-me no seu despertar:
"Tu e o mundo em que vives não passais de um grão de areia
sobre a margem infinita
de um mar infinito."
E no meu sonho eu respondo-lhes:
"Eu sou o mar infinito,
e todos os mundos não passam de grãos de areia
sobre a minha margem."
Só uma vez fiquei mudo.
Foi quando um homem me perguntou:
"Quem és tu?"
Kahlil Gibran
Areia e Espuma
Coisas de Ler
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Notas para o diário

deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.
a dor de todas as ruas vazias.
sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.
a dor de todas as ruas vazias.
mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.
a dor de todas as ruas vazias.
pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.
a dor de todas as ruas vazias.
sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.
a dor de todas as ruas vazias.
os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.
a dor de todas as ruas vazias.
Al-Berto
Horto de Incêndio
Assírio & Alvim
3ª edição - Dezembro 2000
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"(...) mergulharam como tubarões mansos por baixo dos móveis e das
camas e resgataram do fundo da luz as coisas que durante anos
tinham-se perdido na escuridão."
No Natal os meninos tornaram a pedir um barco a remos.
— De acordo — disse o pai —, vamos comprá-lo quando voltarmos a Cartagena.
Totó, de nove anos, e Joel, de sete, estavam mais decididos do que seus pais achavam.
— Não — disseram em coro. — Precisamos dele agora e aqui.
— Para começar — disse a mãe —, aqui não há outras águas navegáveis além da que sai do chuveiro.
Tanto ela como o marido tinham razão. Na casa de Cartagena de Índias havia um pátio com um atracadouro sobre a baía e um refúgio para dois iates grandes. Em Madri, porém, viviam apertados no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Mas no final nem ele nem ela puderam dizer não, porque haviam prometido aos dois um barco a remos com sextante e bússola se ganhassem os louros do terceiro ano primário, e tinham ganhado. Assim sendo, o pai comprou tudo sem dizer nada à esposa, que era a mais renitente em pagar dívidas de jogo. Era um belo barco de alumínio com um fio dourado na linha de flutuação,
— O barco está na garagem — revelou o pai na hora do almoço.— O problema é que não tem jeito de trazê-lo pelo elevador ou pela escada, e na garagem não tem mais lugar.
No entanto, na tarde do sábado seguinte, os meninos convidaram seus colegas para carregar o barco pelas escadas, e conseguiram levá-lo até o quarto de empregada.
— Parabéns — disse o pai. — E agora?
— Agora, nada - disseram os meninos. — A única coisa que a gente queria era ter o barco no quarto, e pronto.
Na noite de quarta-feira, como em todas as quartas-feiras, os pais foram ao cinema. Os meninos, donos e senhores da casa, fecharam portas e janelas, e quebraram a lâmpada acesa de um lustre da sala. Um jorro de luz dourada e fresca feito água começou a sair da lâmpada quebrada, e deixaram correr até que o nível chegou a quatro palmos. Então desligaram a corrente, tiraram o barco, e navegaram com prazer entre as ilhas da casa.
Esta aventura fabulosa foi o resultado de uma leviandade minha quando participava de um seminário sobre a poesia dos utensílios domésticos. Totó me perguntou como era que a luz acendia só com a gente apertando um botão, e não tive coragem para pensar no assunto duas vezes.
— A luz é como a água — respondi. — A gente abre a torneira e sai.
E assim continuaram navegando nas noites de quarta-feira, aprendendo a mexer com o sextante e a bússola, até que os pais voltavam do cinema e os encontravam dormindo como anjos em terra firme. Meses depois, ansiosos por ir mais longe, pediram um equipamento de pesca submarina. Com tudo: máscaras, pés-de-pato, tanques e carabinas de ar comprimido.
— Já é ruim ter no quarto de empregada um barco a remos que não serve para nada.
— disse o pai — Mas pior ainda é querer ter além disso equipamento de mergulho.
— E se ganharmos a gardênia de ouro do primeiro semestre? — perguntou Joel.
— Não - disse a mãe, assustada. — Chega. O pai reprovou sua intransigência.
— É que estes meninos não ganham nem um prego por cumprir seu dever — disse ela —, mas por um capricho são capazes de ganhar até a cadeira do professor.
No fim, os pais não disseram que sim ou que não. Mas Totó e Joel, que tinham sido os últimos nos dois anos anteriores, ganharam em julho as duas gardênias de ouro e o reconhecimento público do diretor. Naquela mesma tarde, sem que tivessem tornado a pedir, encontraram no quarto os equipamentos em seu invólucro original. De maneira que, na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam O Último Tango em Paris, encheram o apartamento até a altura de duas braças, mergulharam como tubarões mansos por baixo dos móveis e das camas, e resgataram do fundo da luz as coisas que durante anos tinham-se perdido na escuridão.
Na premiação final os irmãos foram aclamados como exemplo para a escola e ganharam diplomas de excelência. Desta vez não tiveram que pedir nada, porque os pais perguntaram o que queriam. E eles foram tão razoáveis que só quiseram uma festa em casa para os companheiros de classe.
O pai, a sós com a mulher, estava radiante. — É uma prova de maturidade — disse.
— Deus te ouça — respondeu a mãe.
Na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam A Batalha de Argel, as pessoas que passaram pela Castellana viram uma cascata de luz que caía de um velho edifício escondido entre as árvores. Saía pelas varandas, derramava-se em torrentes pela fachada, e formou um leito pela grande avenida numa correnteza dourada que iluminou a cidade até o Guadarrama.
Chamados com urgência, os bombeiros forçaram a porta do quinto andar, e encontraram a casa coberta de luz até o teto. O sofá e as poltronas forradas de pele de leopardo flutuavam na sala a diferentes alturas, entre as garrafas do bar e o piano de cauda com seu xale de Manilha que agitava-se com movimentos de asa a meia água como uma arraia de ouro. Os utensílios domésticos, na plenitude de sua poesia, voavam com suas próprias asas pelo céu da cozinha. Os instrumentos da banda de guerra, que os meninos usavam para dançar, flutuavam a esmo entre os peixes coloridos liberados do aquário da mãe, que eram os únicos que flutuavam vivos e felizes no vasto lago iluminado. No banheiro flutuavam as escovas de dentes de todos, os preservativos do
pai, os potes de cremes e a dentadura de reserva da mãe, e o televisor da alcova principal flutuava de lado, ainda ligado no último episódio do filme da meia-noite proibido para menores.
No final do corredor, flutuando entre duas águas, Totó estava sentado na popa do bote, agarrado aos remos e com a máscara no rosto, buscando o farol do porto até o momento em que houve ar nos tanques de oxigênio, e Joel flutuava na proa buscando ainda a estrela polar com o sextante, e flutuavam pela casa inteira seus 37 companheiros de classe, eternizados no instante de fazer xixi no vaso de gerânios, de cantar o hino da escola com a letra mudada por versos de deboche contra o diretor, de beber às escondidas um copo de brandy da garrafa do pai. Pois haviam aberto tantas luzes ao mesmo tempo que a casa tinha transbordado, e o quarto ano elementar inteiro da escola de São João Hospitalário tinha se afogado no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Em Madri de Espanha, uma cidade remota de verões ardentes e ventos gelados, sem mar nem rio, e cujos aborígines de terra firme nunca foram mestres na ciência de navegar na luz.
Dezembro de 1978
Gabriel Garcia Marquez
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sexta-feira, outubro 19, 2007
O relógio não para
A tua imagem ainda cravada no caderno; o teu cheiro que se funde com o ar, torna-se intragávelEsboço sorrisos do passado, a medo mas teus..Percorro cada passo teu deixado pelos cantos da casa; bebo da tua caneca, beijo a imaginaçãoonde perduras sem dó.Regresso lentamente ao presente.Os ponteiros do relógio continuam a dar sinal de vida e cada vez mais rápido andam às voltinhas...Saio à rua, onde me misturo com seres perdidos, flores belas(outras podres)..Caminho sem noção da direcção que devo tomar.Entro em ruelas estreitas, alguns becos sem saída que me fazem teimosamente voltar para trásTrago comigo apenas a tshirt do che rasgada e suja colada ao corpo, uma caneta já quase sem carga no bolso de tráse uma folha amachucada entre os dedos.Entro num jardim (nada de especial, apenas um jardim) deito-me na relva (apenas relva igual às outras tantas)e olho o sol...Relembro o passado (como sempre o fiz, como sempre o faço)agarro na caneta e escrevo no ar palavras sem nexo..A folha de papel rasgo-a em pedacinhos e atiro.os para bem longe (não sei bem o porque, apeteceu -me apenas fazê-lo)Balbucio algumas parvoíces sem sentido algum...mas recordo-me de ti..como tu davas tanta importância às minhas loucuras; ao meus DASSE...às merdas que eu dizia e fazia..Lembro-me de transformares cada gesto meu, cada palavra minha (por mais parva que tenha sido) e as transformavas empequenos rios de luz que iluminavam toda a noite...Levanto-me e volto a casa. Olho à minha volta e reparo nos objectos espalhados pelo chão, livros fora dos lugares, as tuas cartas, os teus mails[ e eu fazia questão de não arrumar nada, para te lembrar sempre que passeava pelacasa]Enrolo-me num lençol e observo a luz ténue que entra pela janelinha da sala; sento-me no chãoe reparo nas paredes, escrupulosamente alinhadas, parte de mim a escorrer, o que sinto por ti (ou o que sinto, ou melhor o que eu penso sentirpor ti)Crio sombras indecifráveis, mortos que passeiam pela minha pele deixando um rasto viscoso da vida que levaramO dia acaba, a escuridão da noite mergula na minha intimidade (já arrancada)Uma íbis de cristal entra-me pelo corpo percorrendo todas as minhas veiaslevando-me, completamente, à loucura;Fico quieto, amedrontado até ela se soltar dentro de mim e as coisas se tornarem mais perecíveis a mim e ao "mundo".Cansei-me de te percorrer pelos vazios da noite e no mais profundo da solidão.Volto a fazer esboços, mas agora desenho o qeu é real, os sorrisos que passam diante a minha portarecordo.te tornando o mar, não algo de imaginário ou impossivel de navegar, mas em algo doce e meigo;tornando o relógio suportável de se ouvir e apreciar..recordo.te deixando a íbis de cristal voar entre as sombras dos cadáveres perdidos no vácuo da vida(?) edos animais indecífraveis, efémeros, tristes...Não serás mais uma loucura mas uma recordação deliciosa que escondo que teimo em guardar na gavetado meu armário.
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Espera ansiosa
É com uma espera ansiosa que as horas vão passando. no estômago sinto uma mó capaz de triturar coisas da melhor e pior espécie. não vens. não dizes nada e eu com raiva. não sei bem se é raiva ou se é qualquer coisa que se sente quando esperamos e a espera não acaba. é qualquer coisa consequente a uma espera, porque preciso de atenção. e tu não vens. ganho vontade de te odiar. secalhar já te odeio mas, sei também que te amo. estas esperas assim devem ser de quem odeia ou então, são esperas ansiosas, de quem ama. as duas coisas. uma mais que a outra, qual delas a maior não sei. a maior é a espera em si, a espera com o ódio e o amor juntos. uma história num quarto, onde a espera assume o comando das palavras. em todas as mãos, em todos os dedos, a espera. cabeça pousada nas mãos e nos dedos. as mãos e os dedos a coçar e a sacudir os cabelos com desespero. na barriga, perto do estômago mas no lado de fora da pele, as mãos e os dedos amassam a carne na esperança de o apaziguar. a espera é uma guerra. o mundo numa guerra cá dentro, até nas entrenhas. o estômago parece-me que sobe à cabeça, os braços ficam-me moles e sem força. a ânsia da espera corre-me no corpo todo. e tu não vens. não dizes nada. amo-te. odeio a espera com ânsia. tu dás-me e fazes-me sentir as duas coisas. amo-te e odeio-te. a minha cabeça já é o estômago. as minhas mãos já não são o mártir da espera, são o transporte entre a realidade e o sangue. alguma coisa vincada na pele desesperada faz-me sangrar. e tu não vens. não dizes nada.
Hugo Sousa
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O amor, quando se revela...

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
Fernando Pessoa
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Mundo Mulher

I
Há uma mulher para tudo
Na mulher há um mundo que é de todos
II
A mulher é a primeira infância da terra
e a última ruga do rosto
Joaquim António Emílio
In Os dias sonâmbulos
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Mulher, a Ilha

São colinas os teus seios de bruma,
espaço húmido onde navegam barcos
de saudade;
mulher, que por maravilha
de ser rocha ou água,
é cais onde embarca toda a angústia.
Nos teus olhos cresceu do mar a nostalgia
e ficou a brisa cansada da volta
enquanto crescem musgos na ilha
trazendo consigo o cheiro a maresia.
Avelina da Silveira
In Num risco de pássaros
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Mulher

Uma geografia
sempre a ser descoberta
obscura e secreta
como a solidão.
...
Em silêncio
a intimidade feminina
acende o mistério
que faz lembrar
o aroma dos devaneios
que transporta
o fim da tarde.
Almandrade
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Nem a rosa, nem o cravo...
Jorge Amado
As frases perdem seu sentido, as palavras perdem sua significação costumeira, como dizer das árvores e das flores, dos teus olhos e do mar, das canoas e do cais, das borboletas nas árvores, quando as crianças são assassinadas friamente pelos nazistas? Como falar da gratuita beleza dos campos e das cidades, quando as bestas soltas no mundo ainda destroem os campos e as cidades?
Já viste um loiro trigal balançando ao vento? É das coisas mais belas do mundo, mas os hitleristas e seus cães danados destruíram os trigais e os povos morrem de fome. Como falar, então, da beleza, dessa beleza simples e pura da farinha e do pão, da água da fonte, do céu azul, do teu rosto na tarde? Não posso falar dessas coisas de todos os dias, dessas alegrias de todos os instantes. Porque elas estão perigando, todas elas, os trigais e o pão, a farinha e a água, o céu, o mar e teu rosto. Contra tudo que é a beleza cotidiana do homem, o nazifascismo se levantou, monstro medieval de torpe visão, de ávido apetite assassino. Outros que falem, se quiserem, das árvores nas tardes agrestes, das rosas em coloridos variados, das flores simples e dos versos mais belos e mais tristes. Outros que falem as grandes palavras de amor para a bem-amada, outros que digam dos crepúsculos e das noites de estrelas. Não tenho palavras, não tenho frases, vejo as árvores, os pássaros e a tarde, vejo teus olhos, vejo o crepúsculo bordando a cidade. Mas sobre todos esses quadros bóiam cadáveres de crianças que os nazis mataram, ao canto dos pássaros se mesclam os gritos dos velhos torturados nos campos de concentração, nos crepúsculos se fundem madrugadas de reféns fuzilados. E, quando a paisagem lembra o campo, o que eu vejo são os trigais destruídos ao passo das bestas hitleristas, os trigais que alimentavam antes as populações livres. Sobre toda a beleza paira a sombra da escravidão. É como u'a nuvem inesperada num céu azul e límpido. Como então encontrar palavras inocentes, doces palavras cariciosas, versos suaves e tristes? Perdi o sentido destas palavras, destas frases, elas me soam como uma traição neste momento.
Mas sei todas as palavras de ódio, do ódio mais profundo e mais mortal. Eles matam crianças e essa é a sua maneira de brincar o mais inocente dos brinquedos. Eles desonram a beleza das mulheres nos leitos imundos e essa é a sua maneira mais romântica de amar. Eles torturam os homens nos campos de concentração e essa é a sua maneira mais simples de construir o mundo. Eles invadiram as pátrias, escravizaram os povos, e esse é o ideal que levam no coração de lama. Como então ficar de olhos fechados para tudo isto e falar, com as palavras de sempre, com as frases de ontem, sobre a paisagem e os pássaros, a tarde e os teus olhos? É impossível porque os monstros estão sobre o mundo soltos e vorazes, a boca escorrendo sangue, os olhos amarelos, na ambição de escravizar. Os monstros pardos, os monstros negros e os monstros verdes.
Mas eu sei todas as palavras de ódio e essas, sim, têm um significado neste momento. Houve um dia em que eu falei do amor e encontrei para ele os mais doces vocábulos, as frases mais trabalhadas. Hoje só 0 ódio pode fazer com que o amor perdure sobre o mundo. Só 0 ódio ao fascismo, mas um ódio mortal, um ódio sem perdão, um ódio que venha do coração e que nos tome todo, que se faça dono de todas as nossas palavras, que nos impeça de ver qualquer espetáculo - desde o crepúsculo aos olhos da amada - sem que junto a ele vejamos o perigo que os cerca.
Jamais as tardes seriam doces e jamais as madrugadas seriam de esperança. Jamais os livros diriam coisas belas, nunca mais seria escrito um verso de amor. Sobre toda a beleza do mundo, sobre a farinha e o pão, sobre a pura água da fonte e sobre o mar, sobre teus olhos também, se debruçaria a desonra que é o nazifascismo, se eles tivessem conseguido dominar o mundo. Não restaria nenhuma parcela de beleza, a mais mínima. Amanhã saberei de novo palavras doces e frases cariciosas. Hoje só sei palavras de ódio, palavras de morte. Não encontrarás um cravo ou uma rosa, uma flor na minha literatura. Mas encontrarás um punhal ou um fuzil, encontrarás uma arma contra os inimigos da beleza, contra aqueles que amam as trevas e a desgraça, a lama e os esgotos, contra esses restos de podridão que sonharam esmagar a poesia, o amor e a liberdade!
O texto acima foi publicado no jornal "Folha da Manhã", edição de 22/04/1945, e consta do livro "Figuras do Brasil: 80 autores em 80 anos de Folha", PubliFolha - São Paulo, 2001, pág. 79, organização de Arthur Nestrovski.
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quinta-feira, outubro 18, 2007
Há quem espreite por uma ranhura
Quem não encare a vida de frente
Vivendo só ao sabor da corrente
Fugindo de toda a aventura
Prende o medo que te enclausura
A morte está sempre iminente
Deste modo, goza bem o presente
A vida não é uma fechadura
Aproveita bem a tua passagem
Nunca temas assumir a derrota
Vive feliz durante a viagem
Bebe o licor que da vida brota
Ébrio de amor e coragem
Define a tua própria rota
RHS
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“Se, por um instante, Deus se esquecesse que sou uma marioneta de trapo e me oferecesse mais um pouco de vida, não diria tudo o que penso mas pensaria tudo o que digo. Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam.
Dormiria pouco, sonharia mais, porque entendo que por cada minuto que fechamos os olhos perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os outros param, acordaria quando os outros dormem. Ouviria quando os outros falam e como desfrutaria um bom gelado de chocolate!
Se Deus me oferecesse um pouco de vida, vestir-me-ia de forma simples, deixando a descoberto não apenas o meu corpo, mas também a minha alma.
Meu Deus, se eu tivesse um coração, escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperava que nascesse o sol. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas de um poema de Benedetti e uma canção de Serrat seria a serenata que eu ofereceria à Lua !
Regaria as rosas com as minhas lágrimas para sentir a dor dos seus espinhos e o beijo encarnado das suas pétalas...
Meu Deus, se eu tivesse um pouco de vida...não deixaria passar um só instante sem dizer às pessoas de quem gosto que gosto delas. Convenceria cada mulher ou homem que é o meu favorito e viveria apaixonado pelo amor.
Aos homens provar-lhes-ia como estão equivocados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saberem que envelhecem quando deixam de se apaixonar! A uma criança, dar-lhe-ia asas, mas teria de aprender a voar sozinha. Aos velhos ensinar-lhes-ia que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento.
Tantas foram as coisas que aprendi com vocês, os homens! Aprendi que todo o mundo quer viver em cima da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está em subir a encosta...
Aprendi que, quando um recém-nascido aperta, com a sua pequena mão, pela primeira vez, o dedo de seu pai, o tem agarrado para sempre.
Aprendi que um homem só tem direito a olhar outro de cima para baixo quando vai ajudá-lo a levantar-se...
São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas não me irão servir realmente de muito, porque, quando me guardarem dentro dessa maleta, infelizmente estarei a morrer...”
Gabriel Garcia Marquez
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Sonho de amor
Quando me cerca a noite
e a insónia traz a dor
de tanta dor passada,
eu chamo o teu sorriso
e a noite fica toda
iluminada...
O sonho dos teus olhos
nos meus olhos,
eu não quero perdê-lo...
Fiquemos por aqui,
que um pouco mais
tombamos nos escolhos
do meu destino...
Sem teu sorriso
para sonhar,
a permitir-me que,
na treva imensa,
pare um instante,
a descansar...
Sara Maria Tiago
In Vagueando no Tempo
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Passado
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.
Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.
Aqui livre sou eu - eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.
Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,
Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.
Sophia de Mello Breyner Andresen
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Aqui Estou
Aqui estou, no encontro dos caminhos
no sítio onde os olhares se dobram de terror...
Quando a minha voz disse não e a vontade e o espelho
havia acordo e sonho e flores para abrir.
Quando as minhas mãos escorriam de ternura
havia liberdade e os meus pés descalços
recortavam em sombra a única lisura.
Que lindo o que eu sonhei, que paz e que mistério
que grande força sem lágrimas no mar. . .
Agora estou dorida, morreram-me os cabelos
nos dedos que pediam caiu uma agonia,
as cordas já cortadas tornaram a me ligar.
Na noite que me seque eu quisera sorver
toda a ausência directa do possuir e do ter,
fugida na floresta escondida na giesta
morder aquela terra fecunda em que me sei.
Sem luta, a navegar, um barco branco e meu
sem timoneiro nem rota marcando-me o destino
singrando sob a lua, bebendo o sol dos dias
tão só e o grande olhar de Deus,
deitado ao pé de mim.
Assim correr, ser livre, criar e ter prazer
aquele só prazer igual ao que já sou
uma lira, um canto, uma harmonia enfim
serena, bela, doce e sem violência louca.
Idade duma rosa colhida na manhã
vibrando no calor as pétalas a abrir
surpresa vegetal da vida que se inflama
com o caule cortado e sem poder sorrir.
Quem livre me deixasse dormir na minha planta
este acordo supremo dos membros do amor,
sem traição, sem corte, e só aquele manso
sorver da terra a seiva para poder florir.
Ai, mar em que me banho e que livre me deixas
miragem do meu ritmo, partida para além
meu doce só saber braços, pernas, seios, beijos,
e toda a maravilha de ser sem mais ninguém.
Salette Tavares
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quarta-feira, outubro 17, 2007
Mania do suicídio
Às vezes tenho desejos
de me aproximar serenamente
da linha dos eléctricos
e me estender sobre o asfalto
com a garganta pousada no carril polido.
Estamos cansados
e inquietam-nos trinta e um
problemas desencontrados.
Não tenho coragem de pedir emprestados
os duzentos escudos
e suportar o peso de todas as outras cangas.
Também não quero morrer
definitivamente.
Só queria estar morto até que isto tudo
passasse.
Morrer periodicamente.
Acabarei por pedir os duzentos escudos
e suportar todas as cangas.
De resto, na minha terra
não há eléctricos.
Rui Knopfli
Em Mémoria Consentida
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Liberdade

É em ti que me encontro.
Nos bosques
no voo dos pássaros
na procura da perfeição
na calosa mão
de quem trabalha.
Nos comboios partindo para longe
deixando atrás de si
uma nuvem de vento e de fumo...
Na rádio na televisão
no café no emprego
nas palavras com que não renego
o caminho verdadeiro.
É em ti que ouso...
Na mística que nasce
no caminhar livre pelas ruas
nas minhas mãos
iguais às tuas
Construindo o amanhã.
Vitor-Luis Grilo
In 39 Poemas de Vidamar
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Preto ou Branco

A folha em branco assusta
que nunca a folha
fique em branco
muito tempo
tantas pessoas
não estão em branco
tantos sentimentos
todo o amor
toda a dor
paixão revolta
do mundo
tem que ser
imortalizada sacralizada
nas folhas
vazias em branco
senão
como seria possível
aos burros
que queimam folhas
livros pessoas
emoções vida
serem bestas?
ou
aos não tão burros
que ocultam
ou ignoram conscientes
abafarem?
uuuuhhhh!
Von Trina
In Só o amor
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terça-feira, outubro 16, 2007
Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
-
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os meus pés
–
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma...
-
-
-
Alberto Caeiro
-
-
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Teresa lucas
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Encantamento
voarem como pássaros cegos; e os seus corpos
sem asas afogarem-se, devagar, nos lagos
vulcânicos. Os seus lábios vomitavam o fogo
que traziam de uma infância de magma
calcinado. A água ficava negra, à sua volta;
e os ramos das plantas submersas pelas chuvas
primaveris abraçavam-nas, puxando-as num
estertor de imagens. Tapei-as com o cobertor
do verso; estendi-as na areia grossa
da margem, vendo as cobras de água fugirem
por entre os canaviais. Espreitei-lhes
o sexo por onde escorria o líquido branco
de um início. Pude dizer-lhes que as amava,
abraçando-as, como se estivessem vivas; e
ouvi um restolhar de crianças por entre
os arbustos, repetindo-me as frases com uma
entoação de riso. Onde estão essas mulheres?
Em que leito de rio dormem os seus corpos,
que os meus dedos procuram num gesto
vago de inquietação? Navego contra a corrente;
procuro a fonte, o silêncio frio de uma génese.
Nuno Júdice
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Outro Testamento
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.
Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.
Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.
Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.
Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.
Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.
Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar.
Vitorino Nemésio
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Desalento
Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu chorei
Que eu morri
De arrependimento
Que o meu desalento
Já não tem mais fim
Vai e diz
Diz assim
Como sou
Infeliz
No meu descaminho
Diz que estou sozinho
E sem saber de mim
Diz que eu estive por pouco
Diz a ela que estou louco
Pra perdoar
Que seja lá como for
Por amor
Por favor
É pra ela voltar
Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu rodei
Que eu bebi
Que eu caí
Que eu não sei
Que eu só sei
Que cansei, enfim
Dos meus desencontros
Corre e diz a ela
Que eu entrego os pontos
Vinicius de Moraes
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segunda-feira, outubro 15, 2007
para lá da solidão
que eu inventei
e vesti
outro cais se desenhava
na névoa dum novo dia
e tu vieste
e embarquei
e só então descobri
que antes de ti
não vivia.
Vieira da Silva
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(O soneto que só errado ficou certo)
Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias
para te dizer, com a simplicidade do bater do coração,
que afinal ao pé de ti apenas sinto as mãos mais frias
e esta ternura dos olhos que se dão.
Nem asas, nem estrelas, nem flores sem chão
- mas o desejo de ser a noite que me guias
e baixinho ao bafo da tua respiração
contar-te todas as minhas covardias.
Ao pé de ti não me apetece ser herói
mas abrir-te mais o abismo que me dói
nos cardos deste sol de morte viva.
Ser como sou e ver-te como és:
dois bichos de suor com sombra aos pés.
Complicações de luas e saliva
José Gomes Ferreira
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Etiquetas: José Gomes Ferreira
Não sei quantas almas tenho
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo:"Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.
Alberto Caeiro
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Etiquetas: António Lobo Antunes
Guarda-me...
Guarda-me enquanto trago na pele a volubilidade do sangue e,
da divindade irrepetível,
destilamos instantes na salina húmida dos gestos.
(São da morte o pensamento ponderado,
a dança cautelosa e anunciada,
a medição meticulosa das horas.)
Guarda-me agora:
- também os vasos bebem a resina dos pinheiros
e o sol cai a pique sobre o dia, como se voasse.
© Ana Alves
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sexta-feira, outubro 12, 2007
Sobre o meu coração
Sobre o meu coração ainda vibram seus pés: a alta
formosura do ouro. E se acordo e me agito,
minha mão entreabre o subtil arbusto
de fogo - e eu estou imensamente vivo.
Agora, nada sei. Se com a neve e o mosto dei ao tempo
a medida secreta, na minha vida tumultuam
os rostos mais antigos. Não sei
o que é a morte. Enchia com meu desejo
o vestíbulo da primavera, eu próprio me tornava uma árvore
abismada e cantante. E a beleza é uma chama
solitária, um dardo que atravessa
o sono doloroso. Dos mortos, nada sei.
E de mim - onde deixaram os pés sombrios, o súbito
fulgor da ausência - de mim, vivo e ofegante,
sei uma flor de coral: delicada e vermelha.
Porque morrem assim no interior do vinho, quando
cantam e se extasiam? Porque morrem seus ombros onde
se derramavam as videiras e as escadas subiam?
Um a um vão nascendo meus mudáveis
pensamentos, e eu digo: porque morrem
os que tinham a carne com seu peso e milagre e sorriam
sobre a mesa
como seres imortais?
E agora é a minha vida que se fecha - assombrada.
A vida funda e selvagem. Porque um dia,
como se depaupera e desfaz a presença de um cacho,
o brilho se apagará onde estava a minha letra.
Dançarei uma só vez, em redor da taça,
festejando a última estação. Hoje,
nada sei. Correm em mim os mortos, como água -
com o murmúrio gelado da sua incalculável ausência.
E eu digo: não refulgia a carne quando
a primavera inclinava a cabeça sobre a sua confusão?
Não dormiam junto ao mosto com lírios no pensamento?
Ei-los em mim, absurdos e puros, e digo: se havia
tanto ouro, dentro e à volta deles, porque
se extinguiram?
Agora, nada sei. Eu próprio serei uma espuma
absorta e casta, algures num coração,
e nesse coração se erguerá uma onda de púrpura,
um terrível amor.
Porque meu coração era firme e de ouro, e eu cantava.
Herberto Helder
Elegia Múltipla, poema II
in Poesia Toda
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Etiquetas: Herberto Helder
Não me arrepedendo
quando ainda havia a esperança, a esperança que
havia ainda quando, a esperar-te, perdi horas de que
não me arrependo.
um instante na memória de chegares é mais valioso
do que jardins. do que montanhas. do que anos de
tempo.
arrependo-me de ficar ao sol, de sorrir, de esquecer
que devagar passam os dias. os dias passam devagar,
esquecendo-se de sorrir ao sol e de ficar onde me
arrependo.
JOSÉ LUIS PEIXOTO
In A Casa, a Escuridão
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Etiquetas: José Luís Peixoto
Cidade dos Tolos
Energia, magia dos tolos,
Guia máquinas pelo o
Caminho da inocência,
Transforma algo natural em
Pedaços de matéria intragável.
Movimento e metal, palavras de ordem que coordenam
O dia-a-dia,
Regendo o mundo numa antologia materialista.
Fragmentos de vida aparecem riscados, comandando o mundo dos metais,
Gigantes de vários olhos abrem as suas portas
Aos mestres,
Carregados e despejados pelo o Sol
Desprezo, sarcasmo e indiferença –
São os carros conduzidos por uma estrada que leva e indica o
Caminho da rotina.
E no mundo dos vivos, a esse conduzir
Chama-se viver.
As luzes trocam-se e trocam as voltas ao condutores,
Os olhos dos gigantes adormecem,
Uns levemente, outros de uma só vez;
O Sol poisa entre eles, deixando a sua alaranjada luz, serenamente,
Tomando lugar a Lua.
A cidade frenética dorme.
Adormece.
Deixa que o caminho se restaure, se preencha de novo
Para um novo amanhecer.
A pele do gigante é como um espelho sujo
Dos sobreviventes.
Os condutores choram.
Ansiedade, cansaço, sãos os reis desta hora;
Amortizam a corrida, e ao mesmo tempo aceleram-na.
Elementos verdes rasgam a pele do gigante,
Tentando dar um outra
Cor ao espelho sujo.
Sons alucinantes fazem trepidar os
Pedestres, e L´argent torna-se
Pensamento inesquecível numa tentativa de amainar o
Negativismo e esforço gastos neste dia.
A cidade adormece.
O Pai gigante dorme, e assim energia, magia dos tolos, adormece também...
portas
Aos mestres,
Carregados e despejados pelo o Sol
Desprezo, sarcasmo e indiferença –
São os carros conduzidos por uma estrada que leva e indica o
Caminho da rotina.
E no mundo dos vivos, a esse conduzir
Chama-se viver.
As luzes trocam-se e trocam as voltas ao condutores,
Os olhos dos gigantes adormecem,
Uns levemente, outros de uma só vez;
O Sol poisa entre eles, deixando a sua alaranjada luz, serenamente,
Tomando lugar a Lua.
A cidade frenética dorme.
Adormece.
Deixa que o caminho se restaure, se preencha de novo
Para um novo amanhecer.
A pele do gigante é como um espelho sujo
Dos sobreviventes.
Os condutores choram.
Ansiedade, cansaço, sãos os reis desta hora;
Amortizam a corrida, e ao mesmo tempo aceleram-na.
Elementos verdes rasgam a pele do gigante,
Tentando dar um outra
Cor ao espelho sujo.
Sons alucinantes fazem trepidar os
Pedestres, e L´argent torna-se
Pensamento inesquecível numa tentativa de amainar o
Negativismo e esforço gastos neste dia.
A cidade adormece.
O Pai gigante dorme, e assim energia, magia dos tolos, adormece também...
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Le Parfum de La Vie
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Etiquetas: Sony
Pernoitas em mim
pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória.. amas
ou finges morrer
pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas
é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves
já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes
AL BERTO
Em Rumor dos Lobos 1983
Compilado em O Medo
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Etiquetas: Al Berto
Pergunta-me

Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue
Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos
Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente
Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer
MIA COUTO
In Raiz de Orvalho e outros poemas
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Etiquetas: Mia Couto
quinta-feira, outubro 11, 2007
Olá a todos novamente.
Cá estou eu de novo pronto a tentar levar este blog para a frente. Para isso preciso da ajuda de todos.
Para já gostaria que votassem na aplicação destinada para o efeito. Preciso de ter um feed-back vosso. Obrigado.
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Etiquetas: Quem_Sou_Eu
Repouso
dizer ao ouvido, quando acordasses, e o azul
da manhã te limpasse do rosto a sua cor
nocturna. Veria a luz passar por
sobre os teus cabelos, e falar-te-ia das ilhas
que nos esperam, num oceano sem nome;
e dar-me-ias a tua mão, num instante longo
como a eternidade, enquanto procuro
o teu nome para te chamar, e ouvir-te
dizer-me que acordaste para o dia
sem fim que tem o teu nome.
NUNO JÚDICE
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Etiquetas: Nuno Júdice
quarta-feira, outubro 10, 2007
Estou de volta.. Antes tarde que nunca.
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Etiquetas: Quem_Sou_Eu
Longe
Há uma gramática aberta
no teu corpo, e soletro cada palavra
que o teu olhar me oferece.
Limpo as sílabas que te
escorrem pelo rosto com um lenço de
vidro, descobrindo a tua transparência.
E sais de dentro de um pó de
advérbios, para que eu te dê um nome,
e a vida volte a correr por ti.
NUNO JÚDICE
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Etiquetas: Nuno Júdice
quarta-feira, setembro 19, 2007
sentires, silêncios e sombras
perdido no movimento azebre,
fulguras da tristura ocasional
de um tempo passado
sem prazer.
suave na sua mudez,
a terra olha-te em silêncio.
escutas a voz do perigo
entre o bem e o mal,
consegues pousar
do lado da luz
no frio que te dá ordens
do coração saltam feridas
devoradas pelo infinito
já nada sentes
embriagado na música inaudível,
expeles do teu corpo uma seiva amarga,
e imploras para renascer
de um ventre sem rosto
aguardas na praia que a maré vaze,
encontro-te...
dou-te a minha mão!
l.maltez
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lena
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quinta-feira, março 29, 2007
sentires
acordas junto à sombra dos sentires
perdido no movimento azebre,
fulguras da tristura ocasional
de um tempo passado
sem prazer.
suave na sua mudez,
a terra olha-te em silêncio.
escutas a voz do perigo
entre o bem e o mal,
consegues pousar
do lado da luz
no frio que te dá ordens
do coração saltam feridas
devoradas pelo infinito
já nada sentes
embriagado na música inaudível,
expeles do teu corpo uma seiva amarga,
e imploras para renascer
de um ventre sem rosto
aguardas na praia que a maré vaze,
encontro-te...
dou-te a minha mão!
l.maltez
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sábado, dezembro 02, 2006
nada resta...

cantam as paisagens
no filtrar do dia,
entre olhares rápidos do espelho,
de alguém com hipótese de trabalho
a mota contorna rotundas sobre rotundas,
no mundo da cidade inteligente,
o homem num aspecto incorrupto
acelera, sem recordar os limites
tudo parece ser igual dentro de cada um
a luz, , a sombra, o dia
onde se bebem sentimentos
tudo parece ser ali
após um dia, onde a bebida e os cigarros
fizeram parte da noite mal dormida
e sentimentos esfregados um a um
as horas prolongam-se
no pensamento viajante
onde a ressaca ainda é dor
já nada resta,
nem a paixão que lhe fez tocar um rosto
l.maltez
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terça-feira, novembro 28, 2006
Boa tarde a todos.
Ultimamente a minha vida não me tem permitido passar por cá. Mas sempre pensei que deixava isto em boas mãos.
É com grande pesar que me apercebo que de todos os que pode postar nenhum o faz desde Maio do presente ano...
Julgo poder em breve voltar a dedicar-me a algo que me motiva muito. Sempre pensei que não era só a mim que me dava prazer, gosto e motivação.
Em breve o nosso Blog estará em cima dos carris novamente e a todo o vapor.
Até lá um bem haja para todos.
"Deus quer, o Homem sonha, a Obra nasce..."
"A Vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso canta, chora, dança, ri e vive intensamente antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos."
...
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Gil Von Doellinger
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terça-feira, maio 23, 2006
a casa...

a casa, parece vazia
escuto o som do vento
estavas lá
vazio como a casa,
senti tua sombra
a, sombra que sobrevoava
entre labirintos da minha alma
bastam tuas mãos
cobertas de vida, para encher a casa
procuro veloz com o olhar
o brilho dos sentidos,
o encher os braços
de sonos adiados,
exaustos, atados à imensidão da noite
misteriosa linguagem
entre um pedaço de mim
e os risos forçados, sem tempo
perco-me entre a casa
e o destino
caminho, caminho sem máscara
recomeço onde a realidade parou,
sem tempo, longe da memória
sinto-te em casa de novo
cobre-te o sorriso no rosto
l.maltez
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lena
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sexta-feira, maio 12, 2006
ENCONTRAR-TE
Assim, de um jeito inopinado
ficou-me a sina de te encontrar
num circulo estranho,
de encaixar-me na tua rotação
e saber que transmigras,
ao descobrir-te em mim
como que numa clonagem,
a um tempo,
de felicidade e de mágoa.
Por fatalidade acessória
este esvoaçar em farrapos,
em longos filamentos de sisal
ou de uma fibra qualquer
mas que não iniba
o meu cair em tentação
de roubar alarvemente
uma bruma para consumo próprio
bem ao fim do dia.
Nada de tão grave
como o saber-te de cor
em cada espiral,
e percorrer uma a uma
até à remota essência do teu ser,
intensamente desejado.
E se por cada instinto
eu me deixo possuir
como flor que desabrocha
ao centro de uma galáxia,
e te afago com a suavidade
de uma asa de borboleta,
e te sinto minha quimera,
deslumbrada e deslumbrante,
suspensa de coisa nenhuma
por um instante... Sim!,
ao me eternizar em ti
será numa vibração,
num espasmo;
marcar-te-ei numa ruga,
serei o fluir numa veia,
o efeito ou a causa
a função vital
que te incendeia,
e o sentir plangente
de carícia ou de açoite.
No teu sonho espero ser,
por fim, a malícia
e a volúpia da noite.
__________________Luis Melo
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Luis Melo
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segunda-feira, abril 17, 2006
Aleluia !
Como de um gesto
esboçado só pelo olhar
a chama de um círio
agita-se cá por dentro.
Em sincronia, algures
pela garganta de vidro
do meu tempo,
escorre um instante
com a cintilação
de um sentimento feliz.
De facto, a chama íntima
arde ainda
como uma vitória
arde... celebração
arde... solidária
do fogo vivo
de novo reinventado
pelo melhor sentido
da vida:
a esperança.
E a chama agita-se,
parece bailar
aprimorando em mim
o sorriso
para o melhor
dos Domingos...
parece bailar
avivando uma ideia doce
num nicho enfeitado
da minha memória
... bailar enquanto
a ponta dos meus dedos
trazem-me aos lábios
uma amêndoa que ensinou
o azul celeste
à algibeira obscura
de um casaco.
Nisto decorrem
um punhado de passos
do nosso caminho
e floresce outra Páscoa
enfeitada de primavera.
Aleluia!
________________LuMe
(Luis Melo)
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toca-me...

descolo a voz violenta
e brota dos meus lábios o gemido
por ora o corpo contesta
caminhar em pedras arruinadas
tarda um chegar
toca-me a noite
e
nas veias corre um sangue
que não é meu
sem luz a cidade
mergulha em sombras infindas
toco no vazio de um corpo,
no frio corroído pela visão queimada
pesa a fria raiz da noite
não falo, apenas respiro
e fulguro com o avultar da estrela
tarda o teu chegar
o ar iluminará à força teu rosto
l.maltez
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sexta-feira, abril 07, 2006
Perdido
Através da sala
diagonal
vejo H
a um canto.
Começo a andar,
devagar,
olhando em volta;
Aproximo-me de H,
observo-a
dos pés à cabeça;
Avanço as mãos;
Levo os dedos,
aos seus cabelos;
Percorro,
aquela nuca
inalando, fundo,
o seu perfume;
Beijo,
repetidamente
o pescoço de H;
Sussurro
ao seu ouvido
palavras quentes
de entre Verão
e inferno;
Perco o norte
descobrindo H
nos lábios
sôfregos
de um imenso
beijo
tresloucado;
Latejante,
perco a respiração
e reconheço
o meu coração
desmembrado;
Sinto-me,
enfim.... húmido!
...
«pai» is now known as «mãe»
«ovo» was kicked by «not»
«ide» não era preciso tanto
«mãe» credo
«ali» não cantes ainda
«Kro» tu mandas ...
«Pel» inda bem ... fica mais um pouco
«Som» Isto anda a perder pedal
«amo» GivesPelReallyHotLongSuperAndReally
EroticEarthShatteringSoulBurningOhMyGawd
IfYouStopNowI'llKillYouBetterThanHeaven
YetHotterThanHellGropingDon'tStopTouchingMe
BloodBoilingOhOhOhOhGawdOhGawdOhGawd
SoulStealingDreamMakingCloseToXRatedHand
TremblingKneeBucklingHeartStoppingBody
TinglingEarthQuakeMakingPassionExploding
WetDeepHardLongLingeringKiss!IJustMadeYouMine!
YourMove...
«Pel» amo... que mal eu fiz ?
«Cão» exibições baratas...
«Kro» ...poupem-me
«Dan» vícios de cão
«Out» se contares poderei infirmar
«Som» deve ser o menos mau
«aly» uma série de coisinhas
«inv» desse género
«Pey» ...a pairar ...sem parar
«Foi» (:)Bom Dia
«Bom» :)
«Dia» (:
«Pey» afinal não é mau de todo ...
«afinal não é mau de todo» Pey [[]]
...
Através da sala,
diagonal
vejo H
a um canto.
Começo a andar,
devagar
depois
apresso-me,
corro
e mais e ainda mais, muito, tanto
Então... paro.
Sei que
estou fora
e fora
é como dentro
mas parece
nada!
Sem espanto,
para não variar
estaquei,
inadvertidamente,
a um passo
de me encontrar
como sempre...
Estou perdido !
.
______ LuMe
(Luis Melo)
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Luis Melo
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quinta-feira, março 23, 2006
Etiqueta
Veja-se a minha mão.
Diz aqui, algures:
“Made in Portugal.” Pois!
Algures e genericamente:
“Baixo teor de malícia”
Mais ainda:
“Isento de corantes e conservantes”
e de qualquer perversão avulsa
Algures, exactamente.
Ah! e “não lavar na máquina.”
Claro que sim!
Diz mesmo aqui na minha mão!
Garantiu-me a cigana.
Teve de ser num sábado,
que em qualquer outro dia
estaria ali um polícia
fardado de indiferença
e intransigência
relativa e respectivamente
à minha mão e à cigana.
Reparei que era estrábica.
Ter-lhe-ei dado cem escudos
e ela leu-me só uma linha
a mais legível e fidedigna
na etiqueta do meu viver.
Fiquei quase tão contente
como meia hora antes
ao passar por mim,
risonho e cachimbante
um poeta chamado
David Mourão Ferreira.
Foi no Jardim da Estrela
ao fim da tarde.
Teve de ser num sábado!
Luis Melo
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Luis Melo
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sexta-feira, março 17, 2006
As saudades são muitas...
Deixo um grande abraço a todos com a esperança de um regresso em força e em breve.
Lamento se desaponto alguém mas prometo que quando eu regressar será com força.
Hei-de recompensar-vos.
Sim, porque as saudades são mesmo muitas...
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Gil Von Doellinger
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domingo, fevereiro 26, 2006
Saudade
Acende-se no peito um fogo imenso
Flutua ao desvario, o meu desejo
(Qual chama viva de um ardor intenso
Buscando em tua boca um doce beijo)
Um carinho... uma ternura... o ensejo
De te sentir... de te poder amar!
Porque as horas porque passo e te não vejo
São as mais longas e difíceis de passar...
Mas a alegria de ver-te... num momento...
Apagará todo este sofrimento,
Toda esta sede... (o coração mo diz)
E antes que em teus braços venha o sono,
Meu corpo será teu... em abandono...
E tu em mim... te sentirás feliz!
Maria Manuela Mendonça
In- Poesia no ar
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Teresa lucas
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terça-feira, fevereiro 21, 2006
(.. .)
E o Porto de Herculano,
Como Lisboa é de Garrett.
Lisbôa em gêsso branco, o Porto em pedra escura,
Sobre os abruptos alcantís do Douro;
Esse rio que vem, de longe, solitario,
Cobrir-se de asas brancas de navios
E de negros canudos de vapores.
Encostados aos cais, depõem a férrea carga.
Outros, vão demandando a barra e o farolim,
Que dá uma luz, tão triste! em noites invernosas.
Distante, no poente, esfuma-se uma nodoa,
Em verdes tons fluidos que palpitam
Numa nevoa indecisa, vaga imagem
Da tristeza do mar pintada em nossos olhos.
Porto da minha infância!
A primeira impressão que me causaste
Tenho-a, cheia de espanto, na memória,
Cheia de bruma e de granito!
É uma impressão de inverno,
Sombra cinzenta, enorme, donde irrompe
Alto cipreste empedernido,
No meio de sepulcros habitados. (...)
Teixeira de Pascoais
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Teresa lucas
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terça-feira, janeiro 31, 2006
Desejávamo-nos tanto e nem sabíamos
Desejávamo-nos tanto e nem sabíamos.
Só o descobrimos quando sentimos necessidade
de sacudir o pó
de arrumar as gavetas
de levantar os tapetes
de estender a nossa nudez no chão de madeira corrida.
Ao mesmo tempo soltava-se o vento no berrar das ondas
e a areia fina desnudava-se sem recato
na berma do mar.
Soltava-se a minha e a tua liberdade
na folia da noite.
E o orvalho pousava sereno
nos seios da madrugada.
Adelaide Graça
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segunda-feira, janeiro 23, 2006
desilusão...

a desilusão entrou
na porta trancada
a duplicidade irrompeu,
entrou pela noite
inóspita de palavras brancas
escapou a saudade
dos pedaços de uma aventura
caídos de um corpo
o mar, chegou até mim
num silêncio impenetrável
e reconheci-te na sombra,
ao anoitecer
murmúrios envolventes
de promessas e desejos
um amo-te!
dito a cada instante
em horas somadas, perdidas
de noites seguidas
a desilusão entrou
e abriu a porta...
l.maltez
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lena
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sexta-feira, janeiro 06, 2006

MARÍTIMO
Os ventos são pequenos - nem gemido
de velas nem cordame de folhas.
Sentada num café, conjuro-lhes os cantos, elevo
os olhos como mastro
ao sol. Mas os ventos são poucos
ou os olhos humildes não bastante.
Que o cobertor de espuma se levante:
mesmo de enganos seja só um canto.
Leça da Palmeira, Salão de Chá da Boa Nova
Ana Luísa Amaral
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Teresa lucas
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